NEWSMAIL #9 — Pós-verdade, pós-democracia e muitas viagens

Após um mês sem notícias, voltamos com uma tentativa de um formato maior de newsletter. Queremos feedback 🙂

E, se você conhece mais interessados em temas de inovação política na América Latina, divulgue! Nós aqui recomendamos duas outras que são nossas referências: o Meio, como primeira fonte de informação do dia, e o Farol, sobre o futuro do jornalismo.

Respira fundo que tem muito texto. Começando com as novidades do Update:

#EmergenciaPolitica
Lembram que tínhamos acabado de começar umas viagens pela América Latina? É uma etapa do nosso trabalho que consiste em pesquisa aprofundada e entrevistas com alguns dos principais atores mapeados de cada país. Estivemos na Guatemala e no México no final de outubro e no começo de novembro.

Logo após a Guatemala, produzimos um breve relato do contexto político que explica o surgimento das iniciativas lá mapeadas. Uma ditadura militar na segunda metade do século XX, assim como escândalos de corrupção de governos civis no começo do XXI marcam o período recente.

E dica: como o nosso mapa é sabidamente um espaço de exploração — em que você entra, fica cinco minutos e sai -, vale voltar e filtrar as iniciativas da Guatemala após a leitura.

No México gravamos um vídeo enquanto tudo estava fresco. Ainda vamos escrever, porque foram quase 30 iniciativas entrevistadas e a complexidade é alta. Fato é: há muita diversidade. Desde novas tecnologias aplicadas em mandatos, um movimento espontâneo de jovens que gerou uma explosão da mídia independente local e mudanças institucionais no sistema eleitoral conquistadas por demanda da sociedade civil.

As fotos e os vídeos das viagens estão no nosso facebook 🙂 Agora, um resumo dos principais eventos que fomos convidados a trocar ideias:

ABRE LATAM + ConDatos
Estivemos em um encontro latinoamericano de dados abertos em Bogotá. Entre outros temas, conversamos sobre como a inovação politica se vincula a outras emergências e quais são os fatores que permitem sua constante existência. O site do Ministério do governo colombiano que coorganizou o evento publicou um balanço em que promete seguir apoiando a cultura da transparência.

ColaborAmerica
Outro destaque foi a versão latinoamericana do OuiShare, que aconteceu no Rio de Janeiro entre os dias 17 e 19 de novembro. Caio, da equipe do Update, participou do painel “novos movimentos políticos”, que debateu tendências de inovação política e sua interface com novas formas de organização, empreendedorismo social e dinâmicas econômicas. O evento reuniu mais de 2 mil pessoas. A mesa teve uma hora de duração e pode ser vista na íntegra aqui.

Global Table
A Bia Pedreira foi ao Global Table, que reúne pessoas de todo mundo em torno de um tema específico — o deste ano foi “Estado de Direito nos Balcãs”. Lá, apresentamos as tendências (identificadas no mapeamento), e, nas discussões mais técnicas, cumprimos nosso papel ao provocar sobre o estímulo a uma sociedade civil participativa e a construção de identidade regional. Ah, fomos convidados para o próximo, na Colômbia, em Abril!

Bônus
Bate-papo entre o Rafa, do Update, e o cientista político Humberto Dantas.

AS REFLEXÕES DO FINAL DE 2016

Pós-fato e Checagem de fatos
Você deve ter ouvido falar da ~palavra do ano~. Em alguns lugares apareceu como ‘pós-verdade’, mas significa a mesma coisa. Este texto explica o fenômeno sem citar nenhuma das duas. Um bom artigo no Guardian evoca Francis Bacon para demonstrar que, em certo sentido, “é um problema de no mínimo 400 anos”. O ponto de virada é, novamente, a internet. Saquem a linha fina: “the internet echo chamber satiates our appetite for pleasant lies and reassuring falsehoods and has become the defining challenge of the 21st century”.

O assunto rendeu muito, especialmente após as eleições americanas. Só nas últimas semanas, o Facebook, o Google e os grandes jornais sofreram acusações — e reagiram. Um dos textos da (ótima) série “Jornalismo no Brasil em 2017” conta um pouco da novela. E quem escreve é uma das principais “checadoras-de-fato” no Brasil, a Tai Nalon. É curioso notar como esses dois fenômenos (post-fact e fact-checking) ganharam relevância este ano, o que não significa que um é o mero antídoto do outro.

No mesmo texto, a própria Tai divaga sobre o tema: “quem se propõe a checar deve ter claro que há diferenças substanciais entre o que é verdadeiro e o que é falso — e honestidade para admitir que há um sem número de nuances entre esses dois extremos. Por isso, se é perigoso deixar que uma única corporação de viés monopolista tome a decisão de monitorar ou não boatos virtuais, também deve estar fora de cogitação a criação de uma espécie de ‘Índex do Real Jornalismo’”.

Antídoto ou não, fato é que o ‘fact-checking’, como gênero, nunca bombou tanto no mundo, inclusive na América Latina. Em junho deste ano, rolou o segundo “Chequea LATAM” em Buenos Aires, e desde então, a rede só se fortaleceu: a checagem latina do terceiro debate das eleições americanas e a cooperação entre todas as iniciativas que possuem presença no Rio de Janeiro — incluindo a Nossas, que não é de jornalismo — no último debate das eleições cariocas são bons exemplos.

PS. E se o Google e o Facebook pagassem pelo jornalismo não lucrativo?
PS2. As micro-doações e assinaturas de jornais já aumentaram pós-eleiçãodoTrump.

O futuro da democracia liberal
Dois pesquisadores lançaram artigo preliminar de uma pesquisa em que questionam a premissa da consolidação eterna de democracias liberais. Por trinta anos, os dados mostraram que o número de países classificados como “livres” cresceu. Porém, a partir de 2005, a tendência se reverteu. O trabalho completo será publicado no Journal of Democracy, em janeiro.

O estudo repercutiu em especial por conta de uma coluna no New York Times, mas reflexões do tipo também foram comuns junto aos debates do pós-fato. Paul Mason, colunista do Guardian e notório autor do “pós-capitalismo” (sim, o prefixo está na moda), comenta que “a ordem liberal pode acabar de uma hora pra outra, assim como a União Soviética”.

Não temos opinião formada por aqui (e que bom!), mas é legal ver a crise de representatividade global ser pautada, ao mesmo tempo em que sabemos que todos os fenômenos políticos de 2016 tem muito mais fatores como causa, especialmente locais. Fato é que até um ex-presidente brasileiro destacou que “mudou o algoritmo que rege a política”.

E no campo da inovação política, a galera costuma ser mais otimista. Logo antes da reunião da Aliança que organiza a Cúpula Global de Governo Aberto (OGP Global Summit 2016), um dos diretores escreveu: yet the doomsday scenarios and prognostication are missing an important opportunity: rather than the end of democracy, this is an opportunity to reinvigorate and deepen democracy.

Aliás, essa mesma reunião, que aconteceu em Paris no começo do mês, além de ter reforçado uma série de compromissos em governo aberto, teve como saldo o reconhecimento de um “novo momento político”, em que a importância da transparência só aumenta. E o artigo sobre o evento que repercurtiu no Huffington Post diz o seguinte: while much has been accomplished in the first five years of OGP, governments find themselves in new circumstances, challenged by the rise of populism and movements against globalization or weakened by internal corruption scandals.

Seguindo.

Mulheres latinas
Esta é breve: i) Guatemala tem casos de sucesso no combate ao feminicídio.
ii) Uma lista com 5 “movimentos” feministas latinos recentes.

VALE A PENA CONHECER

Academia de Inovação Politica
Iniciativa do Asuntos del Sur, promete “formar líderes do século XXI oferecendo formação e capacitação sobre as novas práticas políticas e ferramentas inovadoras disponíveis na era digital”. Na programação, um curso de três meses, começando em março do ano que vem. Teaser aqui.

Três relatórios sobre a situação latino-americana
A Oxfam publicou um artigo (de menos de dez páginas) sobre a falta de poder, terra e riqueza por aqui. Na seção de ‘recomendações’, que são 10, destacamos a 5ª: limit the power of elites and their ability to influence the design and implementation of public policies by means of an effective regulatory framework that balances political represe
Nada de novo sob o Sol.

No NEWSMAIL #7, falamos que a Ashoka, junto à Ford Foundation, lançou um desafio de inovação social em direitos humanos. O report, resultado da chamada, sistematiza o que foi encontrado numa matriz em que cruza os temas dos empreendimentos com as carências pesquisadas. Para quem quiser ir direto, está na página 36.

Por fim, mais um relatório da Oxfam, também focado na região, sobre “a intensificação das agressões contra defensoras e defensores dos direitos humanos na América Latina”. As recomendações elencam, entre outras medidas, para a sociedade civil: — manter seus próprios registros de dados de agressões, para contrastá-los com os dados divulgados pelo governo e — fortalecer as redes de comunicação alternativas para romper o cerco midiático, criando redes de solidariedade.

Ou seja, nosso mapeamento está no caminho certo.

O QUE ROLOU

II Congreso Nacional de Participación Ciudadana
Teve como objetivo “promover incidência nas agendas públicas, de gestão local e nacional, e impulsionar processos de inovação a partir da participação, deliberação e decisão nas questões de interesse público e da gestão de governo”. O evento foi organizado por instâncias do governo argentino e achamos alguns relatos oficiais.

Em São Paulo, no começo de dezembro, aconteceu um evento análogo: o 1° Encontro Brasileiro de Governo Aberto.

Congresso do Futuro
Inspirado em evento anual realizado pelo Congresso do Chile, o Senado brasileiro organizou uma série de debates que incluiu o tema da “democracia representativa no mundo digital”. Nada de muito propositivo saiu a partir desta mesa por ora, mas foi prometido que o evento voltará a acontecer anualmente. A ver. Programação completa aqui e gravações dos debates aqui.

Participa LAB
O Medialab Prado, laboratório cidadão da prefeitura de Madrid e referência mundial na área, organizou um encontro internacional de projetos de “inteligência coletiva para a democracia”. O evento teve ampla cobertura e bastante conteúdo produzido com algumas das melhores cabeças da área.Já começamos 2017 com novos planos e projetos, mas hoje foi muita coisa! Agradecemos a quem chegou até aqui. Bom final de ano pra todas e todos 🙂

Leave a Reply

Assine nossa newsletter sobre inovação política