A voz de Marielle Franco

Entrevista concedida ao Instituto Update, em 2017, para a pesquisa “Emergência Política América Latina” e publicada, em 2018, na revista Ocas”.

Capa da edição de maio/junho de 2018 da revista Ocas”

Como foi o seu encontro com a política?

Marielle Franco — Desperto para novas maneiras de fazer política no pré-vestibular comunitário, quando me vejo moradora da Maré, com 17 anos, baixa qualidade de ensino e tentando pensar em trabalho. Tinha terminado o ensino médio e, quando engravido, me dou conta do que é a manutenção de uma gravidez na adolescência, sem cuidado, sem perspectiva. Foi uma porrada! Daí vem o lugar da política. Dessa compreensão de que, ou eu me movimentava, ou ia ficar estagnada. Esse campo mais das necessidades, das emergências.

Foi um processo pessoal ou teve discussões com professores, por exemplo?

Foi coletivo. Quando falo do lugar pessoal, é porque tinha uma filha e era mais velha. Em 1998, entrei na primeira turma do pré-vestibular, mas não passei. Daí, fiquei dois anos fora, casada, vivendo só pra isso, nesse lugar precarizado. Voltei em 2000 e só entrei pra PUC (Pontifícia Universidade Católica) em 2002. Então, não é de imediato. Tem um processo pessoal. Mas quando falo desses dois anos, já estou falando de algo em que o pessoal encontra com o coletivo. Me separo do pai da minha filha, por que tinha passado por violências e o lugar de autonomia da mulher não estava colocado na minha relação.. Quando entro na PUC para fazer Ciências Sociais, é um lugar pessoal que virou coletivo, porque, por exemplo, volto a dar aulas na pré-escola. Volto a trabalhar numa ONG, o CEASM (Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré), que dá frutos, um deles o Observatório de Favelas. Sou da primeira turma do CEASM, que acabou de fazer 20 anos. A elaboração do CEASM é de agosto de 1997, com o pessoal da Informe, da época da Igreja, quando ainda havia muito lugar para as comunidades eclesiais de base, da “Pastoral da Juventude”. Muita gente do PT (Partido dos Trabalhadores), dos áureos tempos.

Então, esse debate da política para mim começa com o movimento social. Com esse lugar do pré-vestibular comunitário e na medida em que vou entendendo processos políticos mais amplos. Aí, óbvio, passa pela eleição do Lula, pelas mudanças estruturais das políticas na minha vida e nas políticas de segurança pública. 2002 foi um tipo de campanha que eu fiz parte.

Você fez parte?

Fiz campanha, fui para a Cinelândia, acompanhei tudo. Tinha ido para o impeachment (do presidente Fernando Collor, em 1992), mas era muito nova. Fui como cara pintada sem saber o que era. Era farra da galera. Estava saindo do fundamental, então, não tinha muito essa dimensão. Agora campanha eleitoral, em termo desse debate que me traz para a política do que eu vejo hoje, só tem 10 anos. Foi em 2006.

O que aconteceu em 2006?

No início dos anos 2000, muita coisa estava ocorrendo na Maré, com pressão de segurança pública, aumento de armas. Eu tinha perdido uma amiga em 2005, colega de pré-vestibular, que tinha passado para Economia na UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). Morreu próxima a casa dos meus avós. Meu avô paterno é um dos primeiros moradores da Maré. Então, você está num lugar que o tráfico sabe por onde sair e a polícia sabe por onde entrar.

Quando a Jaqueline morreu, a gente se perguntava: “Podia ter sido eu?”. E aí fizemos campanha contra o Caveirão e fomos entendendo desse debate da segurança pública, que eu fui aprofundando ao longo do tempo. Mas era assim: Como é que tem um veículo que chega atirando e mata pessoas, por mais defesa da vida dos policiais que se faça? Como é que tinha isso?

E, em 2006, faço a campanha do Freixo (Marcelo Freixo, na época candidato a deputado estadual), nessa perspectiva do direito à vida na favela. E aí já são as mudanças no cenário político eleitoral. Primeira campanha do Psol (Partido Socialismo e Liberdade), um campo progressista já incomodado com a primeira reforma e alguns mandos e desmandos dos primeiros anos do governo Lula.

Você era filiada?

Eu tinha sido filiada ao PT, mas numa escola de formação política que não atuava. A gente tinha leituras. Li alguns clássicos nessa época. O PT já tinha passado por secretarias no Rio, mas eu não estava nos cargos. Então, não tinha a dimensão dessa perspectiva. Vou entender melhor isso quando o Marcelo é eleito. Foi o marco, não só da minha história pessoal, óbvio, por ser assessora parlamentar e ao que tenho acesso depois disso — condições e objetivos de vida, salário, trabalho. Mas também do impacto na vida da cidade do Rio de Janeiro, do debate que a gente faz a partir daí sobre milícia e segurança. Para mim, ali é o corte desse debate de uma política que vivemos até hoje.

De uma atuação institucional?

Isso. Esse corte strictu senso, porque ali eu estou dentro da ALERJ (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro), participando de um jogo político e entendendo o que é assessoria parlamentar. O grupo que fez campanha na Maré indicou o meu nome. O Marcelo queria alguém de favela para a coordenação e essa pessoa devia ser de um trabalho coletivo. Estava terminando a graduação na PUC, em 2007, e me perguntando o que era essa vida na favela. O final da minha defesa de conclusão de curso era sobre desigualdade de renda, principalmente sobre a vida da favela. Então, as próprias diferenças da Maré, os próprios conflitos que haviam lá dentro. Fui assessora dele até 2016, quando saio para concorrer.

Essa assessoria de favela, nos movimentos sociais, é algo do Freixo ou a maioria dos vereadores e deputados do PSOL tem essa figura?

Não. É algo do Marcelo. Bom, o nosso mandato tem também porque tem muita experiência. O do Tarcísio (Motta, vereador pelo Psol) tem. Eu acho que o do Cinco (Renato Cinco, também vereador pelo Psol) tem. Eu diria ser de um campo que entende que a esquerda tem déficit, para dizer o mínimo, com esse lugar da formação de base e vê essa intervenção na ponta, no acompanhamento de fora pra dentro, como algo importante.

Qual foi a motivação para virar candidata e querer disputar esse espaço?

Quando passo a entender que o lugar da viabilidade das mulheres em alguns espaços de decisão eram importantes. Eu ia, por exemplo, para debates na Secretaria de Segurança Pública, e tinha sempre uma fala do pesquisador, do homem, do policial ou do ex-alguma coisa. Vivenciei isso algumas vezes, entendendo que eu ficava incomodada, mas é aquela coisa, a gente vive em uma sociedade machista em que precisamos ir buscando novas formas de fazer. Foi com o tempo que eu entendi melhor isso. Alguém se incomodava se tinha mulher ou não na mesa? Imagina! Se tinha mulher no lugar de um posto de decisão? Não, isso é algo recente.

O que trouxeram de novas práticas na campanha?

Tentar trabalhar para além do jargão “política com afeto”. Eu tinha que colocar isso para fora.

Como você fez isso?

Eu já dialogava com muitas tendências e muitas correntes. Isso possibilitou que eu me apresentasse assim: “Eu não quero (só) te escutar. Se eu tô falando de política de afeto, eu tô falando da gente fazer junto”.

Meu comitê era com o Tarcísio (Motta), no mesmo espaço físico. Na banquinha que fazíamos pela cidade, as pessoas distribuíam os dois materiais. Isso possibilitou, para nós, impulso e não disputa. Mesmo que, objetivamente, estivéssemos disputando a mesma vaga. Quem olhava de fora, falava: “Isso é um absurdo”. Mas, de repente, dividimos os votos. Ele foi o primeiro mais votado e eu a segunda mais votada (pelo PSOL). Eu acho que isso impulsionou. Fiz atividade com o Cinco e com as mulheres — não todas, porque eu não tinha condição de agenda. Mas com as principais, que a gente achava que podia investir, em termos de voto e de retorno nas urnas. Fiz com a Nilceia (Freire), que já tinha sido ministra. Todo mundo comentava: “Vai perder voto pra Nilceia”. Fiz com a Indianara (Siqueira). Eram todas atividades conjuntas, que as pessoas pudessem olhar e perceber: “Opa, tem alguma coisa diferente aqui”.

E o afeto também está no seu programa? Como?

Está. Eu acho que nesse lugar de trazer todos (para trabalhar junto), desde a pessoa que fez o desenho da identidade visual. A coordenação tem uma maioria de mulheres e a gente consegue fazer reuniões periódicas onde eu sou apenas uma parte. Não tem um encontro em que só esteja eu ou um grupo, ou que a gente tenha hierarquizações diferentes. Isso é uma forma de fazer conjunto. Tem o “eu sou porque nós somos”, o debate da Ubuntu, da ancestralidade, que fala muito de “uma sobe e puxa a outra”. Como na atividade que fizemos agora. Fiquei muito feliz. Tomara que a de amanhã seja tão bombada quanto.

É a primeira vez?

É. Queremos fazer dos 100 dias (plenária do mandato). Acabou fazendo agora, na prestação de contas. Foi mais visual, com fala da mulherada e tempo livre. Com espaço recreativo, também de afeto, que eu acho importante. Porque não dá para falar que tem de viabilizar a perspectiva das políticas públicas para as mulheres ou a participação delas sem ter condição objetiva para isso. Então, desde o nosso primeiro lançamento de debate, quando apresentamos a candidatura, temos espaço recreativo. Inclusive hoje, enquanto política para o partido. Muitos chamam de creche, mas a gente chama de espaço recreativo. Virou política. Nas atividades, debates político setorial, laboratórios, tudo que fazemos, tem que ter.

Você é coordenadora também do mandato?

Sim, estou na equipe de coordenação.

Já teve algum ganho, apresentou leis? Como tem sido isso?

Não tivemos nenhuma lei aprovada. Agora, passamos perto, por dois votos não aprovamos o “Dia da Visibilidade Lésbica” no calendário oficial. Não justificando, mas conjecturando, não tem no calendário oficial nenhuma lei com relação à população LGBT. E os técnicos da casa (Câmara Municipal) falam que ninguém nunca chegou tão perto. Aprovamos em primeira discussão e daí na segunda foi derrotado. Por conservadorismo e fundamentalismo, que só cresce. Principalmente pensando na base do governo do prefeito que está aqui hoje. Posso estar comparando errado, mas me parece que um campo mais liberal, empresarial, talvez a lá Dória (João, então, prefeito de São Paulo), visse isso como uma oportunidade de negócio, por exemplo. Nem isso eles fizeram aqui. O fundamentalismo bateu. Não tem nenhuma data para população LGBT no calendário oficial. Em contrapartida, temos o “Dia da Rua”, o “Dia da Assembleia não sei das quantas”, o Dia do tombamento não sei das quantas”. Enfim, de estátuas. Você vê uma diversidade de datas tamanha, que poderia justificar um calendário oficial para a valorização de um público. Não tem.

Qual o seu maior desafio hoje?

Acho que disputar o simbólico, desmistificar temas que, para o campo conservador, é colocado em segundo plano. Falar das liberdades da mulher, do negro é secundário. Pensando no legislativo, o desafio é fiscalizar, acompanhar, elaborar e propor. É conseguir maneiras de disputar esse simbólico, mas que isso se reverta em política pública. Fizemos uma super audiência sobre mortalidade materna e agora estamos traçando metas para diminuir os números da mortalidade materna e incidir, por exemplo, onde eles são mais elevados. Uma delas é fazer uma campanha específica, por exemplo, na região que tem os maiores índices, para fazer formação com esses profissionais. Fortalecer a secretaria que tem uma entrada boa para isso. Enfim, buscar simbólica e objetivamente o objetivo.

E o seu desafio pessoal?

Manter acesa a chama. Porque cansa, pressiona particularmente. Conseguir ver perspectivas no trabalho, que o tempo todo precisa estar mais qualificado. Eu quero me qualificar mais. A gente só vai disputar o campo desse imaginário social com o simbólico se eu estiver mais qualificada. Então, acho que precisamos estar não só na retórica, na oratória, mas nos dados científicos. Eu sempre trago muitos dados do SUS quando vou tratar de alguns temas, como, por exemplo, o debate do aborto. Faço isso para não dizerem que é só uma questão de autonomia da mulher e do movimento feminista.

Pra não falar só do ideológico…

Exatamente. Para falar sobre direitos humanos, eu posso falar sobre segurança pública e apresentar esses dados. Acho que me qualificar para conseguir estar firme me parece ser o mais importante.

O que é inovação política para você?

É ter mais formas de pensar cidadania ativa aproveitando o século 21. Resumindo: da pessoa acompanhar mais e dos processos serem mais transparentes. Aproveitar essa agilidade da rede social e do século 21. Se tem gente fazendo crime pela internet e hackeando de uma forma negativa, tem que ter maneiras de fazermos isso positivamente. De mobilizar, de criar redes, de ampliar intervenção para desmistificar essa casa, para que as pessoas entendam que têm diferenças nesse lugar. Porque, se não, vira tudo o mesmo prédio, o mesmo político, o mesmo partido e a mesma prática. E não é.

Para você, quem é o sujeito político do século 21?

Acho que mulheres e homens do seu tempo.

Mas quais características eles têm de diferente?

Fico com medo de ser meio clichê. Todo mundo tem hoje um smartphone e também opinião sobre alguma coisa. Isso já está quase pré-definido. Acho que a gente vai precisar se reinventar muito para conseguir mexer nessas caixas. Nesses “encastelamentos”. Porque você ouviu dizer e já tem informação sobre aquilo, mesmo com pouco conteúdo. Então, talvez seja uma coisa meio efêmera, mas fico com medo de ser um clichê no sentido de talvez responsabilizar o geracional nesse sentido.

E o tipo ideal? Aquilo que você tenta ser na sua prática, hoje, política?

Fazer coletivo. Uma atuação qualificada, que busque saber e confirmar a veracidade das informações. E talvez sair da dicotomia do bem e do mal, da polarização. As novas maneiras de diálogo precisam ser aprofundadas, pensando nesse novo fazer. Porque, caso contrário, ficamos numa coisa parecida ao que ocorre, por exemplo, com as religiões: ao invés de eu conviver, tolero. Nesse sentido, acho que as disputas pelos conceitos faz parte dessa qualificação. Porque aí eu vou entendendo quais são as diferenças, as nuances. Que são sinônimos, mas talvez não sejam a mesma coisa.

Você tem um exemplo desse poder do diálogo?

Lidar com adolescente, o que não é fácil. Fui dormir de madrugada com a minha filha de anteontem pra ontem. Mas, brincadeiras à parte, acho que, tendo essa perspectiva de ouvir, falar e saber o que você está falando para ser coerente. O que é muito difícil, porque há pressão e é preciso repensar e dar conta daquilo. Acho também que podemos exemplificar com o projeto da visibilidade lésbica, que eu ainda tô muito impactada. Eu fico feliz de termos chegado perto e batido na trave, porque conseguimos dialogar. Por exemplo, alguns vereadores se inscreveram para falar, além, óbvio, da bancada do PSOL. Entre eles, um médico fez uma fala favorável, comentando sobre o debate mais amplo. E é um cara do PMDB, portanto, certamente um tanto conservador. Eu diria que isso signifi um nível de respeitabilidade pelo PL (projeto de lei), pela minha figura e pelo trabalho coletivo. Pelo diálogo que eu travo com eles, botando o dedo na cara, em um sentido do que eu acho que não deve ser, mas, ao mesmo tempo, valorizando algumas iniciativas, tentando pensar que, se não for desse jeito, não vai ser. Porque, nem o PSOL é a última bolacha do pacote, nem é todo mundo igual. E isso nem é uma defesa do PMDB. Mas (é importante), um médico que se dispõe a, durante 10 minutos, defender um projeto de alguém que não é da base, que é da oposição, por uma defesa da saúde pública, em tempos desse revés todo.

Se pudesse mudar alguma coisa no sistema político, o que você escolheria?

Ter 50% de mulheres. Cota pras mulheres e garantia do nosso lugar em pé de igualdade, para que a gente pudesse ter essa assertividade, que é nossa, nos espaços de decisão.

Mas o que é essa assertividade?

É buscar coerência. Quando eu me olho no debate do jogo, de nem vir na “porração” a qualquer custo e nem do negar e recuar. Então, eu diria que me conceituo em um lugar de uma assertividade. As percepções e as vivências das mulheres na cidade são diferenciadas. Trazer isso para o lugar da elaboração e da implementação da política para mim é fundamental.

Qual o seu sonho para a política?

Cara, que a gente pudesse reduzir desigualdades. É ter mais representatividade e um processo econômico em que se possa falar de (produzir) menos pobreza. Que saíssemos dessa dicotomia da corrupção e começássemos a debater desigualdade. Tem gente morrendo, gente sem casa, gente sem água. Mulheres sendo estupradas. Gente pagando mais imposto do que recebe.


Uma inspiração?

Angela Davis.

Um livro?

Americanah”, da Chimamanda Ngozi Adichie.

Um lema?

Eu sou porque nós somos.

Um sonho?

Me manter firme.

A política?

Responsabilidade. Uma das maiores responsabilidades da minha vida hoje.

América Latina?

Visão em perspectiva.

O Brasil?

Desigual, mas importante e acolhedor.

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