A desesperança é o principal ingrediente do autoritarismo

Por Tulio Malaspina

Quantas vezes você sentiu vontade de desistir da política neste último mês por acreditar que “não há esperança” e que “todos os políticos são iguais”? Não à toa, este é um sentimento alimentado de forma programada para que você se afaste da política, pare de consumir notícias e volte para a apatia total, pois quando você perde o interesse pela política, aqueles que estão no poder têm maior liberdade para fazer e desfazer tudo que bem entendem. Quem está no poder hoje no país sabe bem disso. E tem tido sucesso na tarefa, afastando cada vez mais pessoas da política. 

Há alguns dias circulou um vídeo do cantor e empresário Emicida no qual ele trazia a reflexão sobre ir ou não às ruas para se manifestar contra o racismo e contra o governo Bolsonaro. O ponto central do argumento dele é que a falta de estratégia em mobilizações massivas pode gerar um efeito contrário muito mais negativo do que o atual contexto. Concordo em gênero e número com seu argumento e entendo que a melhor estratégia para combater o autoritarismo que se apresenta hoje no Brasil é por meio da ocupação da política institucional, mostrando que é possível fazer política de forma virtuosa e justa. É preciso ter estratégia, claro, mas também é necessário que as pessoas acreditem numa nova política e num novo futuro para nosso país.

O cenário de total descaso com a democracia e o aumento das forças autoritárias tornam imperativo que mais pessoas alinhadas com valores democráticos e de bem-estar social se apresentem como candidatas e candidatos nas eleições deste ano e de 2022. E que as apoiemos de forma ativa. A melhor maneira de romper com esse ciclo destrutivo é ocupando a política com mais e melhores representantes em todas as esferas públicas do nosso país. Se você não estiver lá, outros estarão.

Segundo pesquisa do Instituto Update realizada em setembro de 2019, existem mais de 80 movimentos e grupos de suporte a candidaturas de mulheres para as eleições de 2020, e grande parte deles surgiram nos últimos três anos. Numa outra pesquisa, encontramos cerca de 30 movimentos e grupos de suporte a candidaturas periféricas. Há uma revolução eleitoral acontecendo no Brasil, mas o contexto pessimista e caótico rouba toda a atenção.

Os desafios de lançar uma candidatura, ou mesmo de apoiar um candidato, são enormes. E os custos pessoais e profissionais também. Mas nada custa mais caro que a democracia, e isso, nós, como sociedade, não podemos perder. Os esforços de ativismo, protestos, mobilizações são essenciais para manter o avanço social, mas em tempos de obscurantismo político é preciso atuar também em outros campos e topar novas batalhas. Continuar fazendo o que sempre fizemos não nos levará a um lugar diferente. 

Este é um chamado, um pedido, um sonho: faça parte da política! Voluntarie-se para ajudar uma campanha em que acredita. Doe para muitas campanhas que te represente. Um dia, quem sabe, seja você também candidata ou candidato e ocupe um cargo político para representar seu país de uma forma mais bela, íntegra e inspiradora. E que esse ciclo de destruição acabe logo, para que um ciclo virtuoso de esperança e bem-estar possa ser construído por quem acredita numa sociedade plural, diversa e justa para todas e todos. Por fim, resista a tentação de distanciar-se da política. A desesperança é o principal ingrediente do autoritarismo e desistir da democracia não é uma opção. 

Tulio Malaspina é diretor executivo do Instituto Update.


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