O dilema do movimento feminista peruano e a luta contra o retrocesso

Por Helena Salvador

Após mais de uma semana de contagem de votos, a eleição de Pedro Castillo à presidência do Peru foi confirmada. O professor sindicalista contrasta com a ideologia anti-Estatal defendida por sua adversária no segundo turno, Keiko Fujimori. Castillo, porém, está longe de ser um candidato progressista: ele é contra o casamento gay, a descriminalização do aborto, chegou a declarar que a principal causa do feminicídio no Peru é o “excesso de ócio”e tem um discurso contrário à liberdade de imprensa. 

Apesar de não representar nenhum tipo de avanço em termos de inovação política, Pedro Castillo foi o nome apoiado por setores da esquerda progressista e visto como a melhor opção à presidência pelo movimento de feministas peruanas —mesmo em uma disputa contra uma mulher que poderia tornar-se a primeira presidenta do Peru.

Esse conflito, entre a defesa de interesses sociais coletivos e da pauta de representação feminina no poder, é uma das várias reflexões trazidas pelo pleito peruano. A representação simbólica falou mais alto do que a representação descritiva, isso quer dizer que a carga por trás do nome de Keiko Fujimori foi mais relevante do que o fato de tratar-se de uma mulher concorrendo à presidência.

Um escolha (de verdade) muito difícil

No caso de Keiko, a ideologia fujimorista que ela representa é a política da exploração neoliberal exercida pelo seu pai, que castigou principalmente o passado, presente e futuro das mulheres indígenas que tiveram suas terras destruídas, seus conhecimentos marginalizados e seus corpos esterilizados compulsoriamente.

Keiko Fujimori tentou se utilizar da narrativa “de mujer a mujer” (de mulher para mulher) para tentar angariar fotos femininos, mas ao mesmo tempo chamou as esterilizações forçadas de “política de planejamento familiar”, negando a histórica luta das mulheres indígenas que foram impedidas de constituir famílias. A agenda do partido Força Popular, liderado por Keiko, inclui a destinação de recursos econômicos para a implementação de políticas públicas com enfoque de gênero, sem maiores detalhes. Em seu plano de governo, ela defende o fortalecimento das instituições para combater a “violência familiar” e propõe um programa de incentivo à liderança de mulheres nas organizações. O plano não faz nenhuma menção à políticas de promoção da saúde sexual e reprodutiva e Keiko se posicionou contra o aborto.  

Durante a campanha eleitoral, diversos movimentos sociais saíram em protesto contra a volta do fujimorismo que poderia significar a impunidade e o esquecimento dos casos de esterilização forçada. Mulheres vestidas com capas vermelhas (as chamadas “pañuelos rojos” no Peru),  parte da organização “somos 2074 y muchas más”, puxaram marchas em Lima com o slogan Keiko No Va.

O voto contra Keiko Fujimori foi mais um voto pela memória dos abusos do fujimorismo, do que um voto de apoio a Pedro Castillo.

A opção femista no primeiro turno

O movimento feminista peruano, apesar de não estar tão presente no novo congresso nacional eleito, de maioria conservadora, tem se articulado com força nos último anos. Além das organizações de vítimas de esterilização forçada, o movimento argentino NiUnaMenos tem um braço no Peru e reuniu mais de 50 mil pessoas em manifestações nas ruas de Lima. Em 2020 foram registradas em média 15 desaparições de mulheres por dia no país, uma pandemia tão grave quanto à de coronavírus. Nunca foi tão forte a urgência de levar a pauta da defesa da vida das mulheres à política institucional.

Esse é o posicionamento que defendeu Veronika Mendoza durante o primeiro turno. A antropóloga e candidata de esquerda progressista, que chegou a ser favorita durante os debates, acabou em quinto lugar sendo barrada principalmente pelo conservadorismo peruano que à acusou de defender a “ideologia de gênero que promove a homosexualização de crianças e o incentivo ao aborto”.

No segundo turno, Mendoza repudiou a candidatura de Keiko Fujimori, já que seu partido “segue legitimando a ditadura que perseguiu, criminalizou e esterilizou mulheres campesinas”, mas também se mostrou preocupada com a opção de apoiar Pedro Castillo que, em suas palavras, “é professor e não está de acordo com a educação para a igualdade de gênero”. Veronika acabou apoiando publicamente Castillo, mas destacou que:  “é preciso saber até onde é possível defendê-lo”.

Com a confirmação oficial da vitória de Pedro Castillo, com pouco mais de 40 mil votos de diferença, é visível o rechaço da população à ambos os candidatos. Porém, para o movimento feminista peruano, votar em um candidato homem parece ter sido a melhor escolha contra o patriarcado racista e classista que Keiko Fujimori representa: como filha de Alberto Fujimori, líder do partido Força Popular e mulher sem compromisso com a agenda de gênero.   

Imagem: “Somos 2074 y muchas más”

Leave a Reply

Assine nossa newsletter sobre inovação política