Imaginação política na prática: a luta indígena pela proteção à ancestralidade

A luta pela terra é uma mobilização ancestral – e decolonial – defendida cotidianamente pelas juventudes indígenas que recorrem à imaginação política para construir uma nova realidade.

No dia 17 de  julho é celebrado o Dia da Proteção das Florestas, assunto político urgente e pauta defendida pelas juventudes indígenas organizadas. Enquanto em outros países da América Latina a agenda política dos povos originários é destaque no poder institucional, principalmente no Chile, onde a Convenção Constitucional terá como presidenta uma mulher indígena Mapuche, a defesa da terra e das ancestralidades indígenas no Brasil encontra muita resistência para  integrar-se à pauta política institucional e às esferas do poder público.

Em junho de 2021, indígenas de diferentes etnias do Brasil ocuparam uma área anexa à Agência Nacional de Mineração, em Brasília, para protestar contra o Projeto de Lei 490/07 que altera a normativa de demarcação de terras no Brasil e o acesso a povos isolados. O movimento Levante pela Terra foi a alternativa de mobilização para lutar contra as decisões políticas que retiram o direito à terra da população indígena e ferem a constituição federal que foi construída com a participação dos povos indígenas.

A luta pela terra é uma mobilização ancestral – e decolonial – defendida cotidianamente pelas juventudes indígenas que recorrem à imaginação política para construir uma nova realidade. Txai Suruí, jovem ativista do povo Paiter Suruí, relata como a proteção das florestas é uma herança ancestral de práticas de inovação política.

Nossos direitos são herdados e repassados por nossos pais

Na década 1980, na época em que era presidente da FUNAI (1986-1988), Romero Jucá assinou contratos de vendas de madeira dentro da Terra Indígena Sete de Setembro. O povo Paiter Suruí tinha apenas sete anos de contato com a população não indígena e isto gerou invasões dos madeireiros no território.  Morimop, meu avô, um dos guerreiros mais importantes do meu povo e do clã Gamebey, não admitia isso e decidiu enfrentar os invasores.

Quando eles foram adentrar ao território tradicional, Morimop pegou seu arco e flecha e enfrentou mais de 200 policiais que estavam defendendo a retirada da madeira da terra indígena, mirando no comandante e falando que se entrassem no território ele iria usar suas armas e foi assim que ele impediu que entrassem e demonstrou que lutaria até o fim pelo meio ambiente e seu território sagrado.

Queria contar uma história do meu povo que falasse sobre ancestralidade e proteção da floresta, a princípio, ia trazer uma história sobre os espíritos da floresta, dessas que meu pai me conta, mas resolvi trazer essa pequena história de luta do meu avô que passou toda sua força e sabedoria ancestral para meu pai que hoje passa para mim.    

Meu pai, Almir Suruí, me ensinou que o conhecimento dos Paiter é ancestral, passado oralmente e repassado até os dias de hoje dos mais velhos para os mais jovens. Sabedoria que nos ensina o respeito à floresta, à lua, às estrelas, ao sol, à terra, à água e a toda natureza. Transmitido durante toda a existência do povo Paiter pelas histórias de cada uma dessas coisas. Educando cada indivíduo da comunidade de como ele deve caminhar e também lidar com esse universo, este mundo, que deveria ser pautado no respeito ao próximo e a natureza. Isso nos é ensinado desde criança.

Através de suas histórias, aprendi os tabus alimentares, a proibição do corte de algumas árvores e da caça de alguns animais, por exemplo, se você tiver um filho ou uma filha nova e corta uma castanheira, a sabedoria da criança é prejudicada e ela fica sem memória, ou se você matar uma onça a criança fica doente espiritualmente.

A ancestralidade me ensinou que devemos escutar o que a floresta e seus espíritos estão falando. A lua e as estrelas podem nos avisar que vai haver uma guerra ou que alguém vai perder um membro da família. Devemos estar atentos aos insetos, aos pássaros e até ao canto das árvores.


Fui ensinada sobre Lakapoy, o pai da mata, aquele que nos dá a caça, usa colares de cobras e é o chefe dos porcos do mato, mas nos deixa perdidos na floresta se não agimos com respeito, se não respeitamos a mata. Tudo isso está ligado à nossa visão de mundo e a política do povo Paiter Suruí. 

A política baseia-se na organização, direção e administração de povos. A nossa organização é pautada na escuta e respeito ao todo. Os mais velhos são os mais sábios e são extremamente respeitados. A herança do aprendizado vem com os filhos, que com o decorrer do que nos é ensinado vem ascendendo na comunidade. Somos organizados através do diálogo entre os chefes dos clãs (Gamebey, Makorey, Kabaney, Gamirey), o chefe da saúde, o chefe da educação, o chefe da juventude, entre outros, até que estes cheguem a um consenso que vamos chamar de Parlamento Suruí. 

Em 2014, lançamos o primeiro Código e Normas Paiter Suruí escrito, até onde sei, apenas os Paiter Suruí tem escrito suas leis, enquanto lei. Nele contém a forma política em que meu povo se organiza. São princípios do povo Paiter Suruí: o território e a ancestralidade; respeitar a vida das pessoas, dos animais e da floresta; valorizar e utilizar o conhecimento próprio e ancestral do povo Paiter Suruí; Garantir a participação do povo Paiter Suruí nos espaços de decisões, entre outros temas presentes no Código. Apenas um adendo para que consigam vislumbrar melhor a organização do meu povo.

“A política baseia-se na organização, direção e administração de povos. A nossa organização é pautada na escuta e respeito ao todo. Os mais velhos são os mais sábios e são extremamente respeitados. A herança do aprendizado vem com os filhos, que com o decorrer do que nos é ensinado vem ascendendo na comunidade.”

Vamos voltar alguns parágrafos antes: diferente do que parece acontecer na sociedade não indígena, os mais velhos são muito valorizados e respeitados e são eles quem transferem o conhecimento da cultura. Os jovens são quem vão receber esse conhecimento e dar continuidade à luta.

Falar em povos indígenas e em luta no contexto atual eu não poderia deixar de citar a mobilização indígena que aconteceu em Brasília: o Levante pela Terra. O Levante pela Terra foi uma mobilização indígena nacional, no qual estiveram presentes mais de oitocentos indígenas e vários povos lutando contra a PL490/07 e a tese do Marco Temporal, bem como a todo o desmanche ambiental que o Brasil vem sofrendo e contra todos os ataques que os povos indígenas vem passando historicamente, mas que se escancarou  no governo atual.

O Levante pela Terra foi um grito dos povos indígenas para dizer sobre alguns princípios dos povos tradicionais, alguns já citados aqui, como a preservação do meio ambiente, o respeito à vida, o respeito ao próximo e o valor da floresta em pé, a necessidade de demarcar as terras indígenas e os retrocessos que estamos vendo ser propostos e acontecendo neste Governo e no Congresso Nacional. Foi um grito também para dizer que o planeta está pedindo socorro, que a floresta está conversando conosco e não estamos ouvindo. E, assim como o pai da mata que nos dá comida, se não a respeitamos ela deixa de nos proteger. 

O desrespeito à floresta e aos seus espíritos traz doenças e ainda que você que está lendo não acredite, a Pandemia é consequência disso. Temos artigos que dizem sobre o COVID-19 ser uma consequência das mudanças climáticas. A mãe Terra está dizendo que não temos mais tempo.

Por isso esse Levante pela Terra traz a nossa ancestralidade, nosso dever com a mãe Terra e o Planeta, e o quanto é importante que todos se juntem para salvar o clima e garantir a vida de todos e todas, com respeito à floresta e aos povos da floresta.

Txai Suruí é uma jovem ativista do povo Paiter Suruí, fundou o movimento da Juventude Indígena de Rondônia com o intuito de articular e fortalecer os jovens indígenas do seu estado. Como estudante de direito, aplica seus conhecimentos na luta trabalhando no núcleo jurídico da Associação de Defesa Etnoambiental – Kanindé. Atualmente é Conselheira Suplente no Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente de Rondônia. Uma grande voz do ativismo climático indígena, é voluntária no Engajamundo e Conselheira Global da Aliança Global “Amplificando Vozes pela Ação Climática Justa”.

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