Chile, uma democracia feminista

Mulheres assumiram a linha de frente na construção de novo espaço político

Artigo de Beatriz Della Costa e Carol Althaller originalmente publicado na Folha de São Paulo, em 25/04/2022

O Chile é hoje a inovação política em ação. E não estamos nos referindo “apenas” ao jovem e recém-empossado presidente Gabriel Boric, mas, acima de tudo, ao fato de o país ser guiado pelos princípios do feminismo. O progressismo feminista chileno remonta a 2011, quando se consolidou o movimento estudantil do qual despontou tanto o atual presidente quanto outros nomes que ocupam cargos em seu governo. Ao longo de 12 anos de articulação foi construído um novo espaço político no qual as mulheres se desenvolveram como lideranças em diversas áreas e os feminismos assumiram a linha de frente.

A partir do desenho da nova Constituinte chilena, a primeira com paridade de gênero no mundo, novos paradigmas vêm sendo estabelecidos. Um exemplo são as atividades de cuidado, que garantem igualdade de condições às mulheres que se dedicam a cuidar de seus familiares. Outro é que a Convenção Constitucional recentemente votou a ampliação dos direitos sexuais e reprodutivos no país, assegurando a todas as mulheres a opção de interromper voluntariamente uma gestação.

Entre as 77 mulheres que integram a Convenção, há uma grande parte feminista, mulheres que estiveram antes nas ruas participando das grandes manifestações populares dos últimos anos. Essa pressão social ajudou a criar este que talvez seja o governo mais feminista e feminino da história mundial, com 14 mulheres e dez homens nos ministérios. Elas estão à frente de pastas historicamente masculinas, como Relações Exteriores e Defesa.

Muitos simbolismos reforçam a mudança. Na posse de Boric, Izkia Siches, ministra do Interior, e Camila Vallejo, secretária-geral da Presidência, escolheram roupas em tons de roxo e lilás, cores que identificam a luta contra a violência de gênero. Já o verde, característico dos lenços que são símbolo da descriminalização do aborto, apareceu no figurino da primeira-dama, Irina Karamanos, e nos “pañuelos” que Antonia Orellana, ministra da Mulher e da Equidade de Gênero, carregava no bolso, e Javiera Toro, ministra dos Bens Nacionais, no punho. Já as gravatas, ícone da masculinidade, estavam ausentes dos trajes do presidente e de seus ministros.

No Chile de 1970, a posse de Salvador Allende trouxe inovações nas vestimentas que salientavam uma perspectiva de classe. Agora, Gabriel Boric busca reforçar uma perspectiva de gênero. Pode parecer um detalhe, mas, quando disseminamos uma visão, devemos usar os códigos que carregam essa nova imaginação —no caso, a imaginação política.

É estranho um homem ser protagonista dessa agenda? Certamente seria mais representativo termos uma mulher nesse papel. Boric, porém, tende a provar que todos podemos e devemos ser feministas na busca por democracia real. Em suas próprias palavras, um governo feminista deve “mudar a maneira pela qual nos relacionamos, pela qual vemos o mundo”.

Hoje, se a Constituinte e o Estado chileno têm como eixo principal a sustentabilidade da vida, o protagonista dessa transformação é, sem dúvida, o feminismo.

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