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Insultos, espionagem e retaliações revelam um Mercosul em curto-circuito justo quando uma brecha histórica se abre.
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Uma ilustração em uma página de jornal captura o olhar de quem percorre o acervo Anáforas, na Universidad de la República, em Montevidéu. Ela mostra dois homens sentados diante de uma mesa. O da esquerda veste um terno claro, gravata e chapéu de abas; o da direita, uma jaqueta militar de corte napoleônico, com a espada pendendo do quadril. Os talheres e copos sugerem uma refeição corriqueira, não fosse um detalhe: sobre a mesa e aos pés dos dois homens, cabeças humanas estão empilhadas.
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Juan Manuel de Rosas e Manuel Oribe bebendo o sangue de suas vítimas. Litografia publicada no nº 13 de ¡Muera Rosas!, Montevidéu, 9 de abril de 1842. Anáforas/Udelar.
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Impressa em abril de 1842, a imagem retrata Juan Manuel de Rosas, então governador de Buenos Aires, e Manuel Oribe, ex-presidente uruguaio e seu aliado em uma guerra que se estenderia por doze anos e (no mínimo) quatro países. Sobre a mesa, as cabeças de seus adversários. Ao redor de seus pés, também. A charge brindava o décimo terceiro e último número do folhetim ¡Muera Rosas!, produzido em Montevidéu por argentinos exilados e distribuído clandestinamente do outro lado do Rio da Prata.
Iniciada no Uruguai numa época em que os Estados sul-americanos ainda consolidavam fronteiras, a Guerra Grande foi costurada por alianças que extrapolaram o Prata. O conflito foi tão longo quanto confuso: Rosas apoiava Oribe nos arredores de Montevidéu, enquanto opositores argentinos de Rosas se aliavam ao governo instalado na capital uruguaia. A disputa envolveu França, Reino Unido e, em 1851, o Brasil, cuja intervenção integrou a coalizão que derrotaria Rosas no ano seguinte.
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Primeiro número de ¡Muera Rosas!, publicado em 23 de dezembro de 1841, com caricatura de Juan Manuel de Rosas. Acervo Anáforas/Udelar.
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Já naquela época, fronteiras, interesses e alianças formavam cartografias próprias.
Sozinha, nenhuma dava conta da América do Sul.
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Cento e oitenta e quatro anos depois, afastamos a câmera. O mapa é outro. Repúblicas e suas fronteiras são atravessadas por embaixadas, tratados e organismos criados para dar forma e curso às divergências. A institucionalização não eliminou os conflitos, mas deu a eles endereço, protocolo e interlocutores.
Ainda assim, em 25 de julho de 2026, o presidente argentino desembarcou no Brasil para apoiar a campanha de um adversário político do atual ocupante do Palácio do Planalto, contribuindo para um novo capítulo nos atritos entre as duas maiores economias sul-americanas.
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O céu estava limpo em São Paulo no sábado em que Javier Milei chegou ao Mercado Pago Hall ao lado de Flávio Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e Ricardo Nunes. Os quatro vinham do Palácio dos Bandeirantes, onde o presidente argentino havia recebido, horas antes, a Ordem do Ipiranga, a mais alta honraria do governo paulista. Ali dentro, um público vestido de verde e amarelo acompanhava a homologação da candidatura de Flávio à Presidência pelo PL.
De terno escuro, gravata azul-marinho e a habitual camisa social azul, Milei tomou o microfone. Por trás de óculos de acetato preto, num discreto formato gatinho, leu um discurso de apoio a Flávio recheado de ataques a Lula e ao ministro do Supremo Alexandre de Moraes: “ladrão” e “presidiário”, sobre Lula, e “lixo careca”, disse sobre Moraes, por proibi-lo de visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre pena em prisão domiciliar por tentativa de golpe de Estado.
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Javier Milei discursa em SP durante a convenção que lançou a candidatura de Flávio Bolsonaro. Foto: Reuters/Jean Carniel
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Nos três dias seguintes, a ofensiva do presidente argentino se intensificou nas redes, com 44 posts— escritos majoritariamente em caixa alta— reforçando os ataques. Quase 15 por dia.
Dali, o confronto só se aprofundou. No dia seguinte à passagem de Milei por São Paulo, o Itamaraty trouxe de volta a Brasília seu embaixador em Buenos Aires para consultas, deixando a representação brasileira a cargo de um encarregado de negócios. Foi o gesto mais drástico na diplomacia bilateral desde a redemocratização. Não chegava a romper laços, mas sinalizava que o diálogo entre as duas maiores economias do Cone Sul havia entrado em ponto morto.
A essa altura, a fricção já transbordava o eixo Buenos Aires–Brasília. A poucas centenas de quilômetros dali, a relação do Brasil de Lula com o Paraguai de Santiago Peña acumulava seus próprios nós: à difícil revisão do Anexo C do Tratado de Itaipu somava-se a crise desencadeada pelas denúncias de que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) havia espionado autoridades paraguaias envolvidas justamente nessas negociações.
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Era oficial: a crise política havia transbordado para a diplomacia.
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E já não cabia na América do Sul. Enquanto as relações com Buenos Aires e Assunção se deterioravam, outro eixo de tensão ligava Brasília diretamente a Washington: Donald Trump, com quem tanto Milei quanto Flávio Bolsonaro vêm construindo pontes. Não necessariamente de forma coordenada, mas convergente.
A cronologia ajuda a enxergar o novo desenho:
Em 15 de julho, o governo Trump anuncia tarifas de 25% sobre uma série de produtos brasileiros. Nove dias depois, o Brasil nega vistos a dois funcionários do Departamento de Estado que pretendem viajar a Brasília. Autoridades brasileiras interpretam a missão como uma tentativa de interferir na eleição de outubro; Washington diz tratar-se de uma visita de rotina. É no dia seguinte que Milei sobe ao palco da convenção de Flávio Bolsonaro em São Paulo e lê o famigerado discurso. O Itamaraty reage: chama a consultas seu embaixador em Buenos Aires e convoca o embaixador argentino em Brasília para prestar esclarecimentos.
Agosto começa, e Washington entra novamente em cena: o governo Trump revoga o visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos, em um gesto considerado inédito por diplomatas dos dois países. O próximo movimento vem de Brasília. No dia 13, o governo brasileiro inicia o processo de reciprocidade contra o tarifaço dos EUA com base na Lei da Reciprocidade Econômica sancionada por Lula no ano passado já no contexto da guerra comercial.
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As cabeças ao redor de Rosas e Oribe voltam à cena.
Existe algo de incômodo no olhar que elas devolvem.
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Entre 1842 e 2026 existe justamente aquilo que deveria impedir que os dois momentos se parecessem: quase dois séculos de institucionalização regional.
Como conflitos tão essencialmente pós-modernos quanto os das últimas semanas, travados inclusive mais nas redes sociais do que fora delas, podem fazer lembrar as disputas de uma América do Sul antiga — anterior à gramática institucional que seus países construíram para administrar diferenças?
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É em meio a esse curto-circuito que a América Latina enfrenta seu maior teste de articulação: a sucessão de António Guterres na Secretaria-Geral das Nações Unidas. Pela tradição de rotação regional, a América Latina e o Caribe chegam a 2026 como favoritos a fornecer o próximo chefe da organização. E chegam com abundância de opções: são cinco dos sete candidatos gerais ao cargo — a costa-riquenha Rebeca Grynspan, o argentino Rafael Grossi, a guianense Carolyn Rodrigues-Birkett, a equatoriana María Fernanda Espinosa e a chilena Michelle Bachelet.
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O português António Guterres é o nono secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), exercendo o cargo desde 1 de janeiro de 2017. Foto: © ONU/Violaine Martin.
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A ironia?
Justo quando chega nossa vez, não temos voz comum.
A multiplicidade de candidaturas não é, por si só, um problema: disputas assim começam com vários nomes e exigem negociação. O que pesa é a dificuldade de produzir convergência em um continente política e ideologicamente fragmentado. O caso mais emblemático é o da própria Bachelet: lançada inicialmente por Chile, México e Brasil em conjunto, viu o próprio país retirar o apoio depois da eleição do presidente de extrema-direita José Antonio Kast. Sobrou só o respaldo mexicano e brasileiro.
A ironia dá ainda outra volta. Talvez a maior.
A disputa ganha um componente inédito: a maioria das candidaturas latino-americanas é de mulheres. Quatro das cinco. Michelle Bachelet, Rebeca Grynspan, María Fernanda Espinosa e Carolyn Rodrigues-Birkett disputam um cargo que, em oitenta anos de Nações Unidas, nunca foi ocupado por uma mulher.
A hora e a vez são nossas:
a ONU pode voltar a ser liderada pela América Latina. E, pela primeira vez na história, por uma mulher.
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É abril de 1842 outra vez. Rosas e Oribe continuam à mesa, cercados pelas cabeças de seus inimigos.
Olhamos de novo, agora com mais atenção.
São todos homens.
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Como tantas outras, aquela era uma história contada por homens. Mas o nosso continente é vasto, antigo e irremediavelmente inventivo. No mesmo mundo que produziu a caricatura de Rosas e Oribe, outras formas de organização já eram maquinadas.
A partir de 1822, o governo provincial passou a reconhecer formalmente as chamadas Nações Africanas, associações organizadas em torno de origens africanas como Congo, Cambundá e Mina. A intenção oficial era estimular a ajuda mútua, a emancipação de pessoas escravizadas e a educação dos libertos. As associações, porém, logo ganharam vida própria. Tinham patrimônio e caixa, cobravam cotas, auxiliavam doentes, pagavam enterros e ajudavam pessoas escravizadas a comprar a liberdade.
Então vieram as guerras, e muita coisa mudou. Inclusive quem mandava. A partir de 1840, o recrutamento para os conflitos civis retirou temporariamente muitos homens dessas Nações. As mulheres continuaram se reunindo, arrecadaram as cotas, administraram os bens e chegaram à presidência das sociedades. Segundo a historiadora Marta Goldberg, a mudança se sustentou por mais de uma década.
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Quase dois séculos depois, a pergunta ainda vale: onde procurar articulação quando Estados e organismos regionais deixam de falar em conjunto?
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É verdade que Milei, Lula e Peña andam absorvidos por atritos. Mas a política regional não se esgota neles.
Enquanto uma parte da região desaprende a conversar, há mulheres viabilizando maneiras de fazê-lo. Na Colômbia, Francia Márquez transformou a aproximação com a África em política externa, levando a Estratégia Colômbia–África até o Fórum CELAC–África deste ano. Na Costa Rica, Epsy Campbell impulsionou a agenda afrodescendente no multilateralismo e presidiu, em 2022, a primeira sessão do Fórum Permanente de Afrodescendentes da ONU. E, de Barbados, Mia Mottley transformou vulnerabilidade financeira e climática em uma proposta de reforma da arquitetura financeira internacional.
Exemplos não faltam. Tanto agora como muito antes, nossa região acontece dentro, fora e através das instituições que tentam organizá-la. Seus mapas políticos nem sempre coincidem com as fronteiras dos Estados, e muitos dos seus vínculos ultrapassam os canais oficiais.
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Governos podem perder a capacidade de se articular.
Mas a América Latina nunca dependeu só deles para se definir.
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Mariana Lozzi
Jornalista e escritora
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Toda mulher carrega um mapa
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Reprodução: Linkedin / Instituto Update.
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O Update lançou, em parceria com o Instituto Fogo Cruzado, a pesquisa Mulheres, polícia e facções, que ouviu 2 mil brasileiros por telefone e mais trinta em grupos focais para entender por que o medo da violência cresce mesmo quando os indicadores recuam. Oito em cada dez entrevistados já deixaram de sair à noite por insegurança — mas entre as mulheres esse medo ganha contornos próprios: mais violência doméstica, mais assédio, o dobro de insegurança no transporte público em relação aos homens. O achado central, porém, não é o problema, e sim a resposta a ele: mulheres estão mais abertas do que a média a soluções que somem punição e prevenção, e quase metade da população já as reconhece como vozes legítimas sobre segurança pública. | Folha | O Globo |
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Diante da resistência popular, o governo de Javier Milei na Argentina retirou o capítulo mais controverso do projeto de Lei de Inviolabilidade da Propriedade Privada: a flexibilização da compra de terras por estrangeiros. A versão editada foi a votação e obteve aprovação no Senado na última quinta-feira (06), mas os protestos convocados por sindicatos e movimentos sociais seguiram de pé — a mobilização rejeitou o projeto como um todo, não só a parte retirada. Internamente, aliados do governo já tratam a exclusão como temporária, não definitiva, deixando em aberto uma nova tentativa. | Instagram | Revista Anfibia |
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Milhares de mulheres foram às ruas no Chile contra o projeto “Escuta seu coração”, que pretende obrigar mulheres e meninas a ouvir os batimentos do embrião ou feto antes de realizar um aborto legal. Convocado pela Coordinadora Feminista 8M, o “pañuelazo” chegou a cidades de norte a sul do país sob uma resposta direta à proposta: “Escuta minha decisão”. Apresentado por deputados da direita e extrema direita, o texto transformaria a escuta em requisito para o procedimento nos casos de inviabilidade fetal e estupro. A resistência já chegou ao Congresso: uma das signatárias retirou seu apoio, e a Comissão de Saúde decidiu não priorizar a tramitação. Uma pesquisa Cadem indica que 66% dos chilenos rejeitam a obrigatoriedade. | Mi Periódico | Prensa Latina |
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Keiko chegou, mas o modelo já estava lá
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Keiko Fujimori ao lado do pai, Alberto Fujimori, de quem assumiu as funções de primeira-dama após o divórcio dos pais. Reprodução: Intercept Brasil
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Depois de três derrotas presidenciais, Keiko Fujimori finalmente chegou ao Palácio de Governo no Peru. A vitória apertadíssima sobre Roberto Sánchez devolve formalmente o fujimorismo ao Executivo depois de mais de duas décadas. Mas há uma ironia na ideia de “retorno”: parte importante de seu legado nunca foi embora. A Constituição de 1993 ajudou a cristalizar um modelo de abertura econômica, baixa intervenção estatal e primazia do mercado que atravessou governos. Hoje Keiko assume não apenas como herdeira política de Alberto Fujimori, mas como herdeira de uma estrutura montada sobre informalidade e desigualdade. | Reuters | IDEHPUCP |
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Nem todo legado precisa atravessar três décadas sem contestação. Em 2025, o caso das esterilizações forçadas durante o governo de Alberto Fujimori chegou à Corte Interamericana de Direitos Humanos do Peru, depois de décadas de impunidade. As vítimas foram sobretudo mulheres indígenas e camponesas. | Página 12 |
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Manifestante em Caracas segura cartaz com mensagem anti-EUA. | Maxwell Briceño/AFP
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Na Venezuela, governo e oposição voltaram à mesa (com tutela dos Estados Unidos) para negociar reformas eleitorais e judiciais e abrir caminho para uma transição política. A primeira rodada terminou na última quarta-feira (12) com acordo para a renovação total de todos os magistrados do Tribunal Supremo de Justiça, mas setores importantes da oposição, como a liderança de María Corina Machado, ficaram fora das conversas. | Brasil de Fato | El País |
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Mais mulheres, mesma direita
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“Liderança feminina" e "empoderamento" entraram de vez no vocabulário da direita latino-americana. Enquanto o partido Cambio Democrático reuniu dezenas de militantes em Chepo, no Panamá, para formar quadros para as eleições de 2029, a oposição conservadora em Honduras também busca aproximar lideranças de base às vésperas do ciclo eleitoral. A articulação regional reforça um fenômeno conhecido: mais mulheres ocupando espaços na direita não se traduz, necessariamente, em uma agenda feminista. | Decisiones Panamá | Infobae |
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Garifunas reconhecidas na linha de frente
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Mais de cem mulheres garífunas foram homenageadas em Honduras por sua contribuição à cultura, à organização comunitária e à defesa de direitos. O reconhecimento chega num momento em que essas mesmas comunidades seguem disputando algo bastante concreto: terra. Mulheres garífunas estão na linha de frente da defesa de territórios ancestrais contra despejos, projetos turísticos e outras formas de apropriação, uma luta que já levou Honduras ao sistema interamericano de direitos humanos. | Honduras | WHDIR |
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Afro-colombianas organizadas
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Na República Dominicana, nove organizações afrodescendentes aproveitaram o 25 de julho para cobrar do Estado políticas concretas de igualdade racial. A mobilização ganha peso histórico: foi em Santo Domingo, em 1992, que o primeiro Encontro de Mulheres Negras Latino-Americanas e Caribenhas instituiu a data. A agenda atual inclui combate ao perfilamento racial, acesso a documentação, saúde e trabalho e maior participação de mulheres negras nas decisões públicas. | Acento |
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Dicas da quinzena da equipe do Instituto Update para você.
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🖥️ MIRA o documentário ¡Las Sandinistas! (2018), de Jenny Murray, que reconstrói as histórias das mulheres nicaraguenses que lideraram tropas na Revolução Sandinista de 1979. O filme mostra como, uma vez no poder, essas mesmas mulheres foram marginalizadas pelos próprios companheiros do FSLN, incluindo Daniel Ortega. Uma história sobre construir poder, perdê-lo, e disputar quem tem o direito de contar a memória.
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🎧 ESCUCHA o podcast O Assunto, de Natuza Nery. Para entender melhor os dois impasses que atravessam esta edição, vale uma dobradinha: em Brasil versus Argentina e Paraguai, a conversa destrincha a deterioração das relações entre os três países; em O futuro da ONU, a lente se amplia para a sucessão de António Guterres e a disputa pelos rumos da organização.
💃🏽 BAILA com Equilibrium II, da Anitta. O projeto audiovisual reúne Maria Bethânia, MC Tha, Katú Mirim, Brô MC’s e integrantes do Grupo Ofá, entre outros convidados. Entre terreiros, povos originários e ritmos brasileiros, o projeto coloca a cultura afro-brasileira e referências indígenas no centro do pop.
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Dá para conhecer a América Latina de muitas formas: no prato, na música, na conversa. Mas também nos livros. O difícil é saber por onde começar. Por isso pedimos socorro a Beatriz Quaresma, do @latinohablante, que indicou cinco livros que cruzam o continente por diferentes pontos de partida, sem deixar de se encontrar.
>> AS COISAS QUE PERDEMOS NO FOGO
Mariana Enriquez (Argentina), publicado pela Intrínseca, com tradução de José Geraldo Couto.
A Mariana Enriquez é, pra mim, uma daquelas autoras que você vai amar e se tornar completamente obcecado ou vai deixar de lado. Acho que aqui não existe meio-termo. Ela constrói histórias incômodas, esquisitas, que, entre muitos outros temas, usam o horror para expor a violência estrutural contra as mulheres e transformar o medo em uma forma de denúncia. O conto que dá nome ao livro é um dos meus favoritos.
>> AS HOMICIDAS
Alia Trabucco Zerán (Chile), publicado pela Fósforo, com tradução de Silvia Massimini Felix.
Alia Trabucco Zerán já tinha me conquistado com A subtração, um romance sobre as marcas da ditadura chilena. Mas, em As homicidas, ela deixa a ficção de lado e resgata quatro casos de mulheres que marcaram o Chile no século passado. Pra mim, essa é uma daquelas leituras guiadas por uma pergunta: como essas mulheres teriam sido tratadas se, ao cometerem um crime, fossem homens?
>> A MULHER NUA
Armonía Somers (Uruguai), publicado pela Relicário, com tradução de Mariana Sanchez.
A mulher nua é um romance de 1950 que só agora chega ao Brasil. Um livro que escandalizou na época de sua publicação, a ponto de muita gente acreditar que ele havia sido escrito por um homem, e não por uma mulher. É um romance que confronta o controle sobre o corpo e o desejo femininos, colocando uma mulher em choque direto com as normas sociais.
>> COMETERRA
Dolores Reyes (Argentina), publicado pela Moinhos, com tradução de Elisa Menezes.
Tendo sido censurado mais de uma vez, inclusive banido de algumas escolas argentinas, Cometerra encontrou novos leitores graças a uma mobilização coletiva. Dolores Reyes constrói uma história que parte do ato de comer terra para falar sobre feminicídio, desaparecimentos e a ausência do Estado diante da violência contra mulheres.
>> EU, TITUBA: BRUXA NEGRA DE SALEM
Maryse Condé (Guadalupe), publicado pela Record, com tradução de Natalia Borges Polesso.
Partindo da figura histórica de Tituba, mulher negra escravizada acusada de bruxaria nos julgamentos de Salem, Maryse Condé imagina a voz de uma personagem que a história quase apagou. O resultado é um romance que questiona quem tem o poder de contar a história e discute colonialismo, racismo, misoginia e o silenciamento de mulheres negras. É uma daquelas leituras que nos faz olhar para um episódio histórico por um ângulo completamente diferente.
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Beatriz Quaresma é professora, pesquisadora e criadora do Latino Hablante.
Mestre em Letras e doutoranda pela UFRJ, produz conteúdo sobre literatura latino-americana, leitura e língua espanhola.
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*Sobre o clube: O Club de Conversación Literaria en Español é uma iniciativa dedicada à leitura, à conversa e ao intercâmbio cultural por meio da literatura. Com foco na América Latina, o clube promove encontros mensais em espanhol para discutir obras latino-americanas e encontros bimestrais em português dedicados exclusivamente à literatura brasileira (afinal, o Brasil também é América Latina). É um espaço para quem se interessa por língua e literatura.
O projeto funciona por meio do Catarse, em um modelo de financiamento coletivo com diferentes modalidades de apoio e recompensas, a partir de R$10 por mês.
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