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Ao disputar espaço no bolsonarismo, Michelle Bolsonaro expõe as contradições de um protagonismo feminino construído sob uma gramática essencialmente masculina.
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Uma mulher insiste em reaparecer ao longo dos doze livros do Códice Florentino, a enciclopédia do século XVI que preservou a memória de um México indígena devastado pela conquista espanhola. Enquanto os homens ao redor curvam os troncos sob o peso dos escudos, empunham lanças ou erguem os dedos em riste, ela permanece imóvel, descalça, o cabelo preso em um coque baixo. As mãos ora apontam adiante, ora repousam sobre a saia do vestido. Seu rosto quase nunca muda de expressão.
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Malintzin em duas cenas do Códice Florentino (Livro XII, fólios 26r e 47v, c. 1577–1579): como intérprete entre Hernán Cortés e Moctezuma e acompanhando Cortés em Teocalhueyacan.
Fonte: Getty Research Institute.
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Nos doze livros compilados por frei Bernardino de Sahagún em colaboração com escribas nahuas, essa mulher recebe um nome: Malintzin. Indígena de origem nahua, foi vendida ainda menina como parte de um acordo de paz e entregue aos espanhóis após a batalha de Centla. Trazia consigo um atributo raro naquela época: falava náuatle e maia chontal. Foi essa capacidade de transitar entre duas línguas que a transformou na intérprete de Hernán Cortés.
Não por acaso, os pintores nahuas a registraram quase sempre cercada por homens: era por sua voz que passavam alianças, ameaças e rendições. Mas a história reservaria a Malintzin um destino diferente.
Com o passar dos séculos, a intérprete de Hernan Cortés deixou de ser lembrada como a mulher que mediava duas línguas para se tornar um símbolo da traição. Seu nome, transformado em Malinche, deu origem ao termo malinchista, usado para designar quem prefere o estrangeiro à própria terra.
Hoje, Malintzin reaparece. Agora não mais entre espanhóis e o Império Mexica, mas entre mulheres que emergem no centro de projetos políticos cuja gramática permanece essencialmente masculina, como observamos nas últimas semanas com a projeção política de Michelle Bolsonaro no Brasil. A comparação, porém, termina aí: enquanto Malintzin foi convertida pela tradição em uma metáfora que desconsidera a violência colonial de que foi vítima, a ex-primeira-dama adere voluntariamente a um projeto que faz da subordinação das mulheres um de seus pilares.
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Reprodução: Instagram Michelle Bolsonaro.
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A seleção brasileira estava a poucas horas de enfrentar a Escócia na Copa do Mundo quando, na tarde de 24 de junho, Michelle Bolsonaro publicou uma sequência de vídeos em suas redes sociais. Sobre a escrivaninha, à direita do enquadramento, uma estátua dourada reproduz o gesto de "eu te amo" em Libras ao lado de uma Estrela de Davi. Michelle veste uma camisa estampada com as palavras "amor", "alegria" e "domínio próprio". Olha diretamente para a câmera do celular quando diz ter sido humilhada pelo enteado, o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, após uma divergência sobre a estratégia eleitoral do PL no Ceará. "Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido", relata, e questiona: "Por que só a mulher tem que ceder?".
A pergunta não surge do nada. Ela marca o momento em que o capital político acumulado por Michelle finalmente reivindica autonomia diante do comando partidário. Desde 2023, a ex-primeira-dama percorre metodicamente o país organizando candidaturas para ampliar a presença do PL entre o eleitorado feminino. Ao lado de figuras como Damares Alves e Bia Kicis, defende uma premissa recorrente na direita brasileira: a de que as mulheres levariam à política atributos associados ao cuidado, à sensibilidade e à proteção da família.
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A reação ao vídeo de Michelle não demorou. Parte dela veio do próprio ecossistema bolsonarista, onde um influenciador defendeu restrições à atuação pública das mulheres, chegando a questionar o próprio direito ao voto sob o argumento de que as solteiras votam mal. O curto-circuito ideológico, contudo, não se limitou às redes, e escoou para o plano institucional pelas mãos da deputada Caroline de Toni.
Apoiada publicamente por Michelle no mesmo vídeo, De Toni é autora do projeto de lei que extingue a cota mínima de 30% para candidaturas femininas sob o argumento de que a sub-representação nos parlamentos decorre de uma "inegável falta de interesse das mulheres pela atividade político-partidária".
Ao reivindicar mais presença feminina dentro do campo conservador enquanto avaliza o desmonte das poucas ferramentas legais que viabilizam essa presença, a madrasta de Flávio faz da principal contradição do projeto que representa sua própria condição política.
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É nesse ponto que Michelle Bolsonaro assume um destino sísifico: empurrar a pedra que ameaça esmagá-la.
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A aposta do PL em fortalecer a musculatura diante do eleitorado feminino não é irracional: as mulheres representam 51,5% do eleitorado, uma vantagem de 9 milhões de votos sobre os homens. A demanda por sua representação é real, e ultrapassa barreiras ideológicas, 85% das brasileiras defendendo maior presença feminina na política, segundo a pesquisa Mulheres em Diálogo, do Instituto Update.
Mais do que maioria absoluta, as mulheres brasileiras estão no centro da disputa presidencial. O extrato decisivo está no eleitorado não polarizado, estimado em até 4% dos votantes que escolheram Lula em 2022, mas que hoje desaprovam sua gestão. Nesse grupo, a presença feminina é amplamente majoritária.
Enquanto os levantamentos de intenção de voto desenham uma vantagem confortável de Lula entre as mulheres, a margem de indecisas na pesquisa espontânea ultrapassa os 20%. É exatamente nesse vácuo que a profissionalização do conservadorismo de Michelle Bolsonaro opera. Distante dos debates institucionais, ela mira as indecisas oferecendo uma porta de entrada lateral para o bolsonarismo, usando a capilaridade das igrejas, as redes de assistência e a linguagem do cuidado doméstico para reduzir a rejeição histórica da extrema-direita entre o eleitorado feminino.
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Se as demandas do eleitorado feminino são cada vez mais concretas, por que uma linguagem política fundada em papéis tradicionais de gênero continua encontrando ressonância?
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Na teocracia de Gilead, a ilusão de influência termina onde a estrutura de poder começa. O arco da personagem Serena Joy na série The Handmaid's Tale ilustra os limites de uma liderança construída sob a premissa da própria submissão.
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A eficácia dessa estratégia depende menos do conteúdo do discurso do que da forma como ele organiza pertencimento, autoridade e identificação. É justamente esse mecanismo que a pesquisadora, comunicadora e diretora executiva do Instituto Update Carolina Althaller identifica no vídeo de 24 de junho. Na sua leitura, Michelle faz três movimentos ao mesmo tempo. Expõe a disputa com Flávio Bolsonaro para elevar o custo político de um eventual isolamento partidário. Critica alianças pragmáticas com o centro para se projetar como guardiã da pureza ideológica do movimento. E, ao perguntar por que apenas as mulheres devem ceder, ativa junto à base evangélica a imagem da mulher leal que, apesar da dedicação, acaba desautorizada pela liderança masculina.
Michelle fala de governança com uma linguagem espiritual: missão, chamado, propósito e perdão. Posiciona-se como operadora política e se projeta como verdadeira herdeira do bolsonarismo, enquanto evoca a obediência feminina e reforça a hierarquia de gênero. Ela está na política, mas quase pede desculpas por isso, repetindo que foi convocada pelo presidente do partido, pelo marido Jair Bolsonaro e por Deus a ocupar esse lugar. E, no final do relato sobre a divergência com Flávio, reforça uma (falsa) submissão: "Entendi que ele não queria o meu apoio ou que este era insignificante e então eu me recolhi. Fiquei na minha e assim permaneço."
Michelle vende participação política como obediência — divina, à família, aos homens. Apresenta-se como submissa, mas sabe que não é: o próprio vídeo já é uma subversão, uma ameaça à candidatura de Flávio.
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Na superfície, obediência.
No fundo, desejo de protagonismo.
Mais fundo ainda? Um projeto político que depende, necessariamente, da contenção da autonomia das mulheres.
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Indicadores recentes ajudam a entender por que essa estratégia encontra terreno fértil. Cruzando dados quantitativos e qualitativos, a pesquisa “'Conservadorismo, gênero e feminismo”, desenvolvida para o Instituto Update e publicada no livro Feminismo em Disputa (Boitempo) revela um aparente paradoxo: embora uma parcela expressiva das brasileiras rejeite o rótulo de "feminista", a ampla maioria apoia pautas historicamente associadas ao movimento, como a igualdade salarial, o combate à violência doméstica e a autonomia financeira. Isso expõe que, mais do que um eleitorado movido por identidades políticas, as mulheres brasileiras respondem a promessas de governança e bem-estar material. Michelle Bolsonaro ganha espaço ao traduzir esse anseio por segurança em uma linguagem conservadora, familiar e religiosa, oferecendo pertencimento a quem busca direitos, mas rejeita o carimbo da esquerda.
Essa disputa ganha urgência no Senado Federal, onde as mulheres ocupam hoje apenas 15 das 81 cadeiras. Em outubro entra em disputa um terço da Casa, cuja renovação parcial pode produzir mudanças capazes de redefinir o equilíbrio político do Congresso. Como cada voto no Senado pesa diretamente sobre indicações ao Supremo, mudanças constitucionais e direitos civis, o preenchimento dessas vagas pode transformar a bancada feminina tanto em uma barreira contra retrocessos quanto em sua principal fiadora.
A questão já não é quem ocupa o espaço. É o projeto que esse espaço passa a servir. A movimentação de Michelle Bolsonaro precisa ser lida dentro desse horizonte. Como observa a cientista política Tathiana Chicarino, o vídeo de 24 de junho não representa apenas um desabafo familiar, mas explicita uma disputa por espaço e influência dentro do bolsonarismo. Ao reivindicar protagonismo para si e para outras mulheres do PL, Michelle também busca afirmar sua capacidade de fazer política e disputar os rumos do campo conservador.
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Se a pauta de gênero pode ser instrumentalizada pelo conservadorismo, como disputar a presença das mulheres na política sem cair na armadilha da representação vazia?
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Algumas lideranças latino-americanas têm respondido a essa pergunta deslocando o debate da identidade para as condições materiais da vida cotidiana. Um dos exemplos mais vocais disso é a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, que sustenta uma aprovação histórica apostando em um discurso focado no coletivo. Em sua gestão, o gênero deixa de ser guerra cultural e vira infraestrutura, traduzido em programas de renda e sistemas nacionais de cuidado.
Esse pragmatismo econômico também se fez presente na Colômbia, onde a atuação de Francia Márquez na vice-presidência deslocou a representação do campo simbólico para o orçamento real ao estruturar fomento agrícola e eletrificação rural para comunidades periféricas. No Brasil, a governadora Fátima Bezerra (PT-RN) quebrou a polarização bolsonarista no interior do estado ao garantir, por meio de compras governamentais da agricultura familiar, que o dinheiro da merenda escolar financiasse diretamente a autonomia financeira das mulheres do campo.
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Depois que a extrema-direita transformou cuidado, pertencimento e comunidade em linguagem eleitoral, o desafio do progressismo talvez seja devolver a essas palavras substância material.
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Representação do encontro entre Hernán Cortés, Malintzin e Moctezuma II no Lienzo de Tlaxcala, manuscrito pictórico tlaxcalteca produzido por volta de 1550. Fonte: Wikimedia Commons.
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Cinco séculos e dois países separam Malintzin de Michelle Bolsonaro. Em comum, ambas descobrem que falar em nome de uma ordem não significa poder transformá-la. A primeira traduziu o encontro entre conquistadores e conquistados; a segunda procura traduzir a promessa de protagonismo feminino para um campo político organizado por uma gramática masculina, e a serviço de um projeto de país teocrático e ultraconservador. Em ambos os casos, a voz ocupa o centro da cena, mas não controla o roteiro.
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Aí reside o limite de uma liderança construída dentro de uma estrutura de poder que nunca abre mão da obediência de gênero.
Ela até pode conceder voz às mulheres, mas preserva intacto o direito masculino de dar a última palavra.
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Mariana Lozzi
Jornalista e escritora
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O movimento indígena brasileiro lançou 47 pré-candidaturas em 16 estados e no DF com o objetivo de expandir a Bancada do Cocar nas eleições legislativas deste ano. Articulados pelo projeto "Aldear a Política", os nomes estão distribuídos por nove partidos e disputam vagas que vão das assembleias ao Senado. A iniciativa tenta romper um isolamento histórico: hoje a Câmara conta com apenas cinco deputados indígenas e o Senado nunca teve um representative com mandato pleno. | Agência Pública |
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Ocupar mais espaço na política não significa, necessariamente, ocupar outro lugar na narrativa pública. Para a comunicadora colombiana Nirvana Sinti, o principal viés da cobertura não está na ausência de povos originários nas notícias, mas no papel que lhes é reservado. Quando a narrativa parte quase sempre da resposta oficial, comunidades indígenas aparecem como quem reivindica e governos surgem como quem concede, mesmo quando essas reivindicações já estão garantidas pela Constituição. | Visit Projects |
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Na Guatemala, a disputa pelo espaço público também avança fora da política institucional. Apesar do uso do aparato estatal e judicial para criminalizar comunicadores e lideranças indígenas sob acusações de vandalismo, as rádios comunitárias e as autoridades ancestrais mantêm suas transmissões ativas. Essas redes operam como espaços autônomos de informação, denúncia contra megaprojetos extrativistas e preservação da memória coletiva dos povos Maias. | Redacción Regional
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Nem silêncio, nem retrocesso
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Marcha do Orgulho no dia 27 de junho, em Assunção, Paraguai. Foto: Juan Pablo Pino.
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No último dia 27, a Marcha do Orgulho ocupou o microcentro de Assunção, no Paraguai, cuja principal exigência foi a aprovação de uma lei que proteja a comunidade LGBTI contra a discriminação no país. O projeto original foi apresentado ao Congresso Nacional em 2007, rejeitado em 2014, e uma nova proposta legislativa segue travada e sem votação há mais de uma década. Ativistas do movimento afirmam que o congelamento da pauta institucional deixa a população em permanente situação de desamparo, inviabilizando a base legal para a garantia de direitos civis fundamentais. | ABC |
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O projeto de Sala Cuna (creche) Universal avança no Senado chileno sob o fogo cruzado de sua viabilidade técnica. Na Comissão de Educação, a proposta de reduzir o prazo de implementação de quatro para dois anos encontrou eco no senador Vlado Mirosevic, mas o deputado Cristián Vial condicionou o apoio a uma avaliação fiscal prévia. Em paralelo, a senadora Yasna Provoste questiona a própria estrutura do financiamento. Bancado com recursos do fundo de seguro-desemprego, o benefício atende apenas o mercado formal, deixando de fora a massa de trabalhadoras informais do país. | Biobochile.cl |
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Em homenagem à resiliência das comunidades afetadas, o artista venezuelano Greko lançou a canção "Yo te elegiría de nuevo", um manifesto de afeto e força dedicado à reconstrução do país após o sismo.
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A resposta ao duplo terremoto que atingiu o norte da Venezuela em 24 de junho tem sido sustentada pela articulação da sociedade civil e por redes de solidariedade internacional. Diante do impacto do sismo, são as organizações comunitárias e os comitês locais que lideram o mapeamento de desaparecidos, a triagem de doações e a assistência emergencial na ponta. No centro dessa engrenagem de reconstrução estão as mulheres venezuelanas: ao assumirem a gestão das cozinhas comunitárias, o cuidado de idosos e órfãos e a logística de abrigos, elas transformaram os vínculos de vizinhança na única infraestrutura funcional das regiões afetadas. A mobilização popular demonstra que, para além da tragédia, a sobrevivência e o futuro do território dependem da solidez do tecido comunitário. | PHVox |
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Uma dívida de dois séculos
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A proposta prevê que as comunidades passem a ser sujeitos de direito público com patrimônio próprio. A medida pode reordenar a relação com municípios e regiões, submetendo a novas regras a participação desses povos na vida nacional. Crédito: Presidência.
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O governo mexicano abriu uma consulta nacional para elaborar a Lei Geral de Direitos dos Povos Indígenas e Afromexicanos, a primeira legislação do tipo em mais de 200 anos do Estado. Assinada pela presidenta Claudia Sheinbaum, a convocatória vai ouvir 69 povos originários e a comunidade afromexicana, alcançando 28,5 milhões de pessoas (20,5% da população). O processo ocorre por meio de assembleias regionais e a proposta deve ser entregue ao Congresso em 12 de outubro. Regulamentando a reforma constitucional de 2024, o texto prevê personalidade jurídica e patrimônio próprio para as comunidades, além de regras para consentimento prévio e um juízo de amparo específico. Para organizações civis como a Fundar, a medida atende a uma dívida histórica de reconhecimento formal e autonomia. | Infobae |
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A obsessão pela polarização como única chave de leitura eleitoral ignora uma fratura silenciosa na América Latina: o esgotamento dos extremos. Nessa análise, cientistas políticos defendem que o voto decisivo já não pertence aos núcleos ideológicos duros, mas a uma massa cinzenta de eleitores pragmáticos e desengajados. Longe das guerras culturais das redes sociais, esse contingente avalia a política estritamente pela entrega material de bem-estar, segurança e infraestrutura no cotidiano. O desafio atual reside na capacidade em decifrar esse vácuo: ao tentarem combater o populismo mimetizando seus excessos, os partidos tradicionais terminam por alimentar o mesmo ecossistema que pretendiam implodir, deixando órfã a maioria que simplesmente busca normalidade institucional e estabilidade econômica. | Diálogo Político |
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Dicas da quinzena da equipe do Instituto Update para você.
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🖥️ MIRA o documentário As primeiras, que resgata a história das mulheres que formaram a primeira seleção feminina de futebol do Brasil em uma época na qual o esporte era proibido no país. Dirigido por Adriana Yañez, o filme joga luz sobre trajetórias que desafiaram a censura estatal e o machismo estrutural para abrir os gramados às novas gerações, em um testemunho de resistência coletiva.
🎧 ESCUCHA o novo episódio do podcast Duas e Tanto, onde Carol Pires e Marina Dias recebem a antropóloga e teóloga Jaqueline Moraes Teixeira para entender qual o perfil das eleitoras evangélicas e por que o voto delas pode ser decisivo nas eleições de 2026, e como Michelle Bolsonaro se tornou um fenômeno político compreendendo o que quer esse segmento do eleitorado.
💃🏽 BAILA com o lamento de La Llorona. Uma das canções mais emblemáticas da tradição mexicana encontra na voz de Lhasa de Sela uma leitura profundamente histórica. Ao longo do século XX, parte da tradição intelectual mexicana aproximou a lenda da mulher que vaga pelas noites chorando os filhos perdidos de Malintzin, a intérprete de Hernán Cortés que abriu esta edição da news. Em vez da traidora celebrada pelo imaginário nacional, Lhasa devolve à personagem a dimensão da violência que atravessou sua história. O resultado é uma interpretação cortante, em que o lamento deixa de soar como culpa para se tornar memória.
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La Llorona é o álbum de estreia da cantora Lhasa de Sela, lançado em 1997. Foto: Pop Montréal / Filippa Lidholm.
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