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Instituto Update | O Realismo Mágico da Política Latino-americana | Foto: Bruno Carvalho
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Nos últimos dias, as perguntas e incertezas sobre a Venezuela se multiplicaram dentro de casa e nos grupos da família. Como diz meu companheiro venezuelano, não é que os últimos anos não tenham sido assim, mas sem dúvidas o ataque dos Estados Unidos inaugura um novo capítulo não apenas para a Venezuela como para toda a América Latina.

Na América Latina, aprendemos a viver nas contradições. Podemos sentir alívio com a saída de um ditador e, ao mesmo tempo, horror pela forma como aconteceu. Podemos repudiar o imperialismo dos Estados Unidos e reconhecer os crimes de Maduro. Podemos desejar democracia para a Venezuela e desconfiar profundamente de quem chega com tanques prometendo "transição". Essas contradições não nos enfraquecem, elas são a marca de quem se recusa a simplificar a vida real em narrativas convenientes.

Mas há perguntas que o debate polarizado entre "apoiadores do regime" e "defensores da invasão" não está fazendo e são essas que importam agora: O que acontecerá com os venezuelanos que dependiam dos programas sociais do chavismo? O que acontecerá com os presos políticos do chavismo?  Como reagirão as forças armadas e grupos internos que foram armados pelo regime? Até quando chavismo e imperialismo vão dividir o poder e em troca de que? E, a pergunta mais antiga e dolorosa da Venezuela: dessa vez, o petróleo vai "alimentar" quem?

Nesta primeira edição do ano do Realismo Mágico, queremos começar 2026 apostando na nossa capacidade de imaginar outros futuros possíveis. Uma Venezuela e uma América Latina que alimentam quem vive da terra, não quem a invade por suas riquezas. Onde cuidar das riquezas naturais não seja sinônimo de entregá-las a ditadores ou impérios. Onde recusar a opressão interna não signifique aceitar a externa. Pode parecer utópico, mas é exatamente essa recusa que abre espaço para construirmos o bem viver que tanto falamos. Esse é o nosso convite para 2026: seguir acreditando que há outros caminhos e que podemos construí-los juntas.

Dany Fioravanti, Gerente de Comunicação do Instituto Update

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O ano começou de forma chocante, ainda que não totalmente inesperada: na madrugada de 3 de janeiro, os Estados Unidos realizaram uma operação militar, invadiram a Venezuela e sequestraram o presidente, Nicolás Maduro, que segue preso nos EUA. O que se seguiu não foi uma transição democrática, mas uma rearrumação do poder para dar acesso aos norte-americanos ao petróleo venezuelano. Quem assumiu o governo foi a vice-presidente Delcy Rodríguez, em diálogo direto com o governo Trump. Não há horizonte para eleições e tampouco condições para que a oposição se organize de forma democrática.

+ Neste cenário, um dos poucos movimentos visíveis tem sido a libertação de presos políticos, um processo que vem sendo acompanhado por organizações venezuelanas de direitos humanos. | Efecto Cocuyo |

+  Delcy Rodríguez passou a ocupar os holofotes internacionais, o que levanta uma pergunta central: quem é essa mulher profundamente ligada ao regime de Maduro e que agora aparece como figura-chave desse novo arranjo de poder? | Volcánicas |

+ Logo após a invasão, Donald Trump fez um discurso público sobre o papel e interesse dos EUA. Uma análise publicada pela revista colombiana Gaceta chama atenção para a escolha das palavras do presidente norte-americano, que em nenhum momento apontou para a reconstrução democrática da Venezuela. | Revista Gaceta |

+ Diante da avalanche de desinformação sobre o que acontece no país, vale acompanhar o trabalho de jornalistas que estão cobrindo a Venezuela com rigor e proximidade. No Brasil, Janaína Figueiredo, do O Globo, é uma referência em América Latina. Na Venezuela, destacam-se Valentina Laiz, cofundadora do Armando.Info, um dos principais veículos de jornalismo investigativo do país, e Luz Mely Reyes, fundadora do Efecto Cocuyo, site de jornalismo independente. Todas estão ativas no X e no Instagram e são fontes importantes para acompanhar os desdobramentos.


Na Colômbia, a tensão se concentra na reunião prevista entre Donald Trump e o presidente Gustavo Petro na primeira semana de fevereiro. Após uma ligação com Trump, até então alvo de fortes críticas públicas de Petro, o presidente colombiano convocou um grande protesto em Bogotá. Ainda assim, o tom adotado em seu discurso durante o ato foi mais moderado do que o esperado, possivelmente influenciado pelo calendário eleitoral. | El País |

+ No plano interno, o cenário eleitoral colombiano começa a se desenhar. A esquerda já tem Iván Cepeda como candidato, enquanto no centro e na direita surgem múltiplas candidaturas. Especialmente a direita e a extrema-direita vêm capitalizando a invasão promovida por Trump na Venezuela como discurso eleitoral, reforçando uma retórica de segurança e alinhamento com os EUA. | Revista Raya |


Organizações da sociedade civil na Argentina, incluindo a Anistia Internacional e o CELS, denunciaram a reforma do sistema de inteligência promovida pelo governo de Milei. Segundo essas entidades, a mudança pode colocar em risco dados pessoais da população e abrir espaço para uma vigilância massiva. | Anistia internacional |


A primeira viagem internacional do novo presidente do Chile, José Antonio Kast, foi à Argentina, onde se reuniu com Javier Milei. Organizações da sociedade civil chilena lançaram um alerta para que grupos, especialmente feministas, se mantenham atentos e engajados em relação à nova administração. | La Neta |


O Paraguai tem ganhado destaque na mídia e no debate público recentemente. O país sediou a reunião para fechar o acordo do Mercosul e União Europeia. Além disso, um personagem paraguaio é um dos protagonistas da série Pluribus, uma das mais assistidas do mundo atualmente. Para quem quer se aprofundar, o jornal The Paraguay Post publicou uma série de 10 livros para entender melhor o país. | The Paraguay Post |

Inspirações latino-americanas para alimentar a sua imaginação política.

Democracias desbordadas: a mais recente edição da revista Nueva Sociedad, publicação latino-americana que reúne acadêmicas e jornalistas da região, traz um dossiê especial sobre as chamadas "democracias transbordadas", aquelas que vem extrapolando os marcos institucionais na América Latina, com as crises de segurança e os governos autocráticos. 

A publicação reúne uma série de ensaios e análises sobre temas centrais da política latino-americana atual. Entre eles, um texto que discute se o México pode ser uma inspiração para a esquerda na região; um ensaio de Gabriel Kessler e Maria Victoria Murillo sobre a chamada “década do mal-estar na América Latina”; análises sobre o resultado da eleição no Chile, a situação política na Bolívia e os rumos do governo de esquerda no Uruguai. A revista traz ainda uma reflexão sobre a era do cripto autoritarismo em El Salvador e um ensaio que busca explicar por que tantos latino-americanos apoiam Donald Trump.  Todos os textos estão disponíveis na íntegra online nesta nova edição. 

Iniciativas na América Latina impulsionando uma nova democracia, que seja para todas as pessoas.

Para elegermos mais mulheres pretas nos espaços de poder nestas eleições, a construção é coletiva e começa agora. Até 23 de janeiro, estão abertas as inscrições para o projeto Eu Voto em Negra, iniciativa da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco, em parceria com a Casa da Mulher do Nordeste e com apoio da Oxfam Brasil. O projeto vai selecionar lideranças pré-candidatas para um processo de formação e incidência política voltado às eleições de 2026, apostando no fortalecimento coletivo para ampliar a presença de mulheres pretas nos espaços de poder. As informações sobre critérios de participação e os materiais para divulgação nas redes estão aqui. | Eu Voto em Negra |

Dicas da quinzena da equipe do Instituto Update pra você.

🖥️MIRA  Desde a invasão dos Estados Unidos e dos bombardeios em Caracas, o Efecto Cocuyo,  veículo independente de jornalismo venezuelano tem divulgado debates quase diários entre jornalistas, acadêmicos e figuras da política venezuelana. A cada novo acontecimento, os profissionais do meio alternativo se reúnem para uma conversa, disponível nas redes sociais. | Efecto Cocuyo| 

🎧ESCUCHA  o episódio mais recente do podcast El Hilo, da Rádio Ambulante. Nos primeiros dez minutos, a produtora do programa, que está em Caracas, relata de forma muito humana como foi o dia do ataque: o clima na cidade, a confusão inicial, com pessoas achando que se tratava de fogos de artifício, e a sensação de estranhamento em uma Caracas ainda em ritmo de pós-festas. O episódio ajuda a aproximar o ouvinte da realidade vivida pelos venezuelanos naquele momento. | El Hilo |

💃🏽BAILA  A banda venezuelana Rawayana lançou uma canção logo após a invasão norte-americana, “Tonada por Ella”, acompanhada por imagens do país e por uma letra que soa como uma homenagem profunda à terra.

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