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Instituto Update | O Realismo Mágico da Política Latino-americana | Foto: Alessandro Dantas |
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São seis e meia da tarde em São Paulo, a maior metrópole da América Latina. As pessoas baixam as portas dos comércios e tomam o transporte público para casa. No ônibus e no metrô, o ar tem a densidade do cansaço do povo. Talvez pela primeira vez na história, o tempo — e a falta dele — ocupa o centro do debate público no Brasil.

Na região mais ansiosa do planeta, o que ainda é capaz de alimentar a esperança dos latino-americanos? As pessoas se permitiram imaginar o que fariam com um dia a mais. Quem trabalha 6x1 imaginou o que faria com dois dias de folga. E mesmo quem já folga um fim de semana inteiro também se permitiu imaginar como seria trabalhar menos. Porque, embora o projeto de lei proponha o mínimo de dignidade, o debate público foi além: fez gente calcular o valor do próprio trabalho e perceber que gera muito mais riqueza do que tem acesso; fez gente ver descanso como direito, e pensar que não existe esforço pessoal que resolva um problema político.

Essa imaginação política também vive no sentimento que leva milhares de argentinos às ruas, semana após semana, contra um governo que vende o país em parcelas e testa os limites do povo. Desde o início do governo Milei, os piquetes sindicais diminuíram, mas os protestos de massa aumentaram. Foram 42 manifestações em 11 meses de 2025, quase uma por semana. É esperança na mudança, é compromisso com o futuro, é amor ao país, é consciência de que se merece viver melhor. Relatório da Defensoria Pública da Argentina

A resposta também está na disposição de participar da vida pública. Em meio a uma apuração tumultuada que demorou mais de 1 mês e testou a fé de qualquer eleitor, 80% dos peruanos foram às urnas para escolher o nono presidente do país em dez anos, registrando uma das menores taxas de votos brancos e nulos dos últimos anos. Insatisfação com o presente, sim. Renúncia ao que pode ser, não.

Quem diria que foi justo o esgotamento que alimentou nossa esperança. Porque o debate público sobre o fim da escala 6x1 coletivizou e politizou a exaustão. E isso é uma ameaça e tanto para quem lucra com ela. Mais tempo para a vida é a pauta decisiva destas eleições e do futuro da democracia brasileira. Estar acá y estar ahora é o convite que Jorge Drexler faz em sua nova canção sobre os tempos de um tambor, sobre a batida que, com atenção, lembra o passar do tempo da vida.

Nossa aposta é que o povo latino ainda enxerga no voto uma possibilidade concreta de transformar a própria vida. Quando a democracia é capaz de devolver tempo de vida às pessoas, ela deixa de operar como instituição e vira matéria de encantamento.

Duas décadas depois, outra Colômbia

No dia 10 de maio, a Colômbia completou duas décadas desde a decisão que descriminalizou o aborto em três circunstâncias específicas. O que parecia um avanço pontual acabou sendo apenas o primeiríssimo capítulo de uma transformação muito maior. Entre 2006 e 2022, em meio a batalhas judiciais, mobilização feminista e disputa de narrativas, o país construiu uma das legislações mais avançadas do mundo em direitos reprodutivos. Foi uma grata surpresa: um país majoritariamente católico e considerado “conservador” é hoje referência global em direito ao aborto. Brasil, nada de perder esperança, viu? 

No centro dessa história está Mónica Roa, a advogada que levou o caso à Justiça e abriu a brecha que se transformou em uma mudança estrutural. | Volcánicas | | Foto: Causa Justa / Revista CLevel |

Um país a três semanas das eleições presidenciais

As eleições presidenciais estão marcadas para o último fim de semana de maio e os cinco candidatos mais competitivos, Abelardo de la Espriella, Claudia López, Sergio Fajardo, Iván Cepeda e Lorena Valencia estão a todo vapor com as campanhas. A Colômbia também se tornou um laboratório para o uso da inteligência artificial na eleição presidencial deste ano. Atenção, Brasil 👀. O pesquisador José Felipe Sarmiento descreveu a situação do uso indiscriminado de IA para fabricar vídeos e áudios de candidatos que viralizam em poucas horas. | *desinformante |

O meio ambiente se consolidou como um dos temas centrais da disputa em um país que busca afirmar seu protagonismo regional na agenda climática após sediar o encontro de Santa Marta. Uma análise atenta dos programas ambientais revelou que apenas Cláudia López, candidata de centro e ex-prefeita de Bogotá, e Iván Cepeda, nome mais associado à continuidade do projeto de Gustavo Petro, mencionam explicitamente os povos indígenas em suas propostas. | La Silla Vacía | 

Argentina tem 5 Prêmios Nobel e um governo que não quer pagar a conta da universidade

Na semana passada, os argentinos voltaram a ocupar as ruas, agora em defesa da universidade pública. Mobilizações massivas tomaram diferentes cidades do país. Ao que parece, mesmo em crise econômica e social, os hermanos seguem encontrando nas ruas um espaço de resistência e exercício democrático. O povo argentino tem muito orgulho da sua educação pública, que é referência na região e recebe estudantes de todo o continente. Aliás, para quem não sabe, o  país tem cinco prêmios Nobel, o maior número na América Latina. No centro do conflito está o descumprimento, por parte do governo de Javier Milei, das normas que garantem o financiamento do ensino superior. A Justiça argentina já considerou ilegal a postura do governo, que busca expor os gastos das universidades e lançar suspeitas sobre os reitores. | Cenital | | Foto:  Damián Dopacio, Noticias Argentinas, AFP |

Uma piscina de mármore com cascata abala o governo de Javier Milei

No centro das denúncias está Manuel Adorni, Chefe de gabinete e porta-voz do governo Milei, e é acusado de uso indevido de recursos públicos. O caso, que começou com revelações sobre uma obra luxuosa, desencadeou uma série de novas acusações e passou a dominar o debate político no país. O impacto já é visível: a popularidade de Milei atingiu o nível mais baixo desde o início de seu mandato. | BBC Mundo |

Kast descobre que o Chile ainda tem memória

No Chile, José Antonio Kast atravessa um momento de desgaste. Sua popularidade caiu de forma acentuada à medida que avança o debate sobre a chamada “Ley de Reconstrucción Nacional”, um pacote de reformas ultraliberais que combina austeridade fiscal com cortes em áreas estratégicas como ciência e educação. A proposta reacendeu no Chile o debate sobre o legado do neoliberalismo e a rejeição a esse modelo que levou milhões de pessoas às ruas em 2019, em uma onda de protestos que mobilizou cerca de 30% da população. | Prensa Latina |

Oito anos depois, Latinoamérica pode voltar à presidência da ONU

A possível indicação de Michelle Bachelet, ex -presidente do Chile, para a presidência da Organização das Nações Unidas, a ONU, mobiliza a atenção no país. Se confirmada, sua escolha recolocará uma liderança latino-americana no centro do sistema multilateral, em um momento de intensa reconfiguração geopolítica e crise do papel da ONU. | Interferencia |

Uma pesquisa independente escuta cubanos dentro e fora da ilha 

Uma iniciativa conduzida por meios digitais independentes, organizações da sociedade civil e jornalistas reuniu mais de 40 mil respostas entre o fim de abril e o início de maio. O levantamento busca traçar um perfil atualizado dos cubanos que vivem na ilha e oferece um raro retrato da opinião pública em um contexto onde dados independentes são escassos. | El Estornudo |

O que significa “reparação”: um olhar brasileiro

“Indicação é Reparação” é o título do vídeo-manifesto lançado no dia 13 de maio, data que marca a abolição formal da escravidão no Brasil. A peça defende a nomeação de uma mulher negra para o Supremo Tribunal Federal já que em mais de 130 anos de existência da Corte, nenhuma mulher negra jamais ocupou uma cadeira no tribunal. | Mulheres Negras Decidem |

Também na última quarta-feira, a Coalizão Negra por Direitos lançou virtualmente a campanha “Nem mais um dia! Reparação já!”, em defesa da aprovação da PEC 27/2024, conhecida como PEC da Reparação. A proposta prevê a criação do Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial, articulando União, estados, municípios e sociedade civil, além do Fundo Nacional de Reparação Econômica e de Promoção da Igualdade Racial (FNREPIR). | Geledés |

Neste ano, o 13 de maio também lança luz sobre uma forma contemporânea de exploração do trabalho. O debate em torno do fim da escala 6x1 ganhou força no Brasil ao questionar uma lógica que ainda submete determinados corpos a rotinas exaustivas e desiguais. Em um país onde a população negra continua sendo a mais exposta à precarização laboral, a discussão sobre jornadas de trabalho e direito ao descanso também é uma pauta racial.| Alma Preta |

Dicas da quinzena da equipe do Instituto Update pra você.
 

🖥️MIRA ¿Cómo ser feliz? é o documentário da ex-deputada argentina Ofélia Fernández. o filme investiga os impactos das novas tecnologias sobre a saúde mental da juventude e propõe uma reflexão sensível sobre os desafios de crescer em tempos de algoritmos e crises permanentes.

🎧ESCUCHA este episódio, do podcast  El Hilo, que explora como as redes sociais e um sentimento generalizado de ansiedade estão moldando o clima político e eleitoralno Peru, Colômbia, Brasil e Haiti.

💃🏽BAILA com Milo J e sua apresentação no Tiny Desk em um manifesto audiovisual sobre a identidade argentina, rioplatense, andina e latino-americana. O artista tocou com o grupo de  murga uruguaia Agarrate Catalina em um cenário com um mate com garrafa térmica, uma bandeira do seu time “Club Deportivo Morón”, um pañuelo das Abuelas de Plaza de Mayo, uma boneca com a frase “Nunca Más”, uma placa em homenagem às Guerra das Malvinas, um livro de Martín Fierro, símbolo da literatura nacional, uma revista dedicada a Mercedes Sosa e um vinil, de Horacio Guarany.

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