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Colômbia
Olhem só que coincidência: as tão aguardadas eleições legislativas na Colômbia aconteceram justo no dia 8 de março. Então o chamado feminista de levar o protesto das ruas às urnas ganhou ainda mais força. E não por acaso nem sorte, foram as mulheres que protagonizaram os principais acontecimentos e vitórias deste pleito.
Nem tudo são flores: no Senado, a candidatura mais votada em nível nacional foi a de uma mulher do campo conservador: Nadia Blel Scaff. Mas o cenário geral aponta para outra direção. A maioria das mulheres eleitas ao Senado defende agendas feministas e progressistas. | Infobae | | Radio Nacional |
No mesmo dia das legislativas, também ocorreram as consultas internas dos partidos, e, mais uma vez, o destaque da noite de apuração foi o nome de uma mulher de direita, com uma agenda que passa bem longe das pautas feministas. A senadora Paloma Valencia, vinculada ao campo uribista. Ela já deixou claro que não se considera feminista e nem defende o direito ao aborto. Ao exaltar seu lugar como mulher em espaços historicamente definidos como masculinos, ao mesmo tempo em que ataca a agenda feminista, Paloma desconsidera o movimento coletivo que tornou possível sua própria presença nesses espaços. | BBC News |
Uma liderança indígena na vice-presidência: já podemos sonhar?
Um anúncio mobilizou o país: a coalizão de esquerda, encabeçada por Iván Cepeda, hoje à frente nas disputas e herdeiro do campo político de Gustavo Petro, apresentou sua nova candidata à vice-presidência, a líder indígena Aída Quilcué. Senadora e referência na defesa da saúde e do Bem Viver dos povos indígenas, Quilcué tem uma trajetória marcada pela participação nos processos do Acordo de Paz de 2016. Sua indicação ecoa movimentos anteriores de articulação entre lideranças populares e figuras de grande projeção, como Francia Márquez. | Volcánicas |
Foi inclusive a coalizão de esquerda do Pacto Histórico, encabeçada agora por Iván e Aída, quem mais elegeu parlamentares no saldo final. Mesmo com esse resultado, o bloco não conquistou maioria no Congresso. O resultado gerou uma celebração cautelosa e a expectativa voltada para as eleições presidenciais, que acontecem no final de maio. | El País |
Se, por um lado, as mulheres protagonizaram os principais movimentos políticos, o pleito revelou um paradoxo: embora mais mulheres tenham se candidatado a cargos legislativos, o crescimento da representação feminina no Congresso foi tímido. Na Câmara dos Deputados, por exemplo, a participação permaneceu abaixo de 30%. Um retrato de uma tendência regional de estagnação da presença feminina nos espaços legislativos de poder. | El Tiempo |
Ancestralidade e tecnologia: líder indígena propõe ferramenta de IA para construção de consenso
Entre as experiências políticas mais inusitadas da eleição esteve a candidatura ao Senado da iniciativa Gaitana IA. O projeto, liderado por um parlamentar indígena, buscava experimentar um modelo de “inteligência comunitária” no parlamento, com decisões orientadas por consultas coletivas e consensos comunitários mediados por tecnologia. A proposta, no entanto, não alcançou votos suficientes para conquistar uma cadeira no Senado. A ideia de consulta, participação e tomada de decisão comunitárias brilha nossos olhos, mas ainda temos um pé atrás com essa história de IA e política. Essa iniciativa te entusiasma ou te assusta? | La Silla Vacía |
Perú
Haja candidatura: são 36 nomes na disputa presidencial para as eleições de abril, mas mais de 40% do eleitorado segue indeciso. A disputa vai ser acirrada pelos indecisos, e o campo progressista tem a oportunidade de se comunicar com a massa de jovens indignados.
O fantasma do autoritarismo: Entre os nomes que lideram as pesquisas, aparecem figuras já conhecidas. Keiko Fujimori, filha do ditador Alberto Fujimori que governou o país por 10 anos, mantém forte presença política mesmo após sucessivas derrotas eleitorais e investigações por corrupção. Na dianteira, surge Rafael López Aliaga, líder do partido Renovación Popular. Empresário e conservador, ele construiu sua imagem pública com forte discurso religioso e anti-esquerda, sendo apelidado de “Bolsonaro Peruano” | Expresso | Tá aí uma coisa que a gente não queria exportar 🤦🏾♀️
Enquanto isso, o campo progressista tenta se reorganizar. A coalizão Nuevo Perú aposta em lideranças territoriais e na representação de povos indígenas, com nomes como Verónika Mendoza e Alberto Quintanilla, que articulam agendas ligadas ao Bem Viver andino e à justiça social em regiões como Cusco e Puno. | Peru 21 |
Mas no fim, quem vai decidir essa eleição são as juventudes!
A geração Z, que protagonizou uma série de mobilizações recentes no país, concentra grande parte dos indecisos e representa um eleitorado em expansão. Ao contrário do que muita gente pensa, a juventude é um sujeito político chave, mas não são todas as figuras políticas que conseguem falar seu idioma. Cerca de 38% dos jovens peruanos demonstram interesse por política, mas apenas 6% relatam participação ativa. O desafio é transformar indignação em engajamento eleitoral. Não dá mais pra adiar: é a hora de aprender as novas gírias, o sendo de humor, conhecer os influencers, memes e trends do momento e baixar o tik tok 🫨. | El Comercio |
Por trás desse cenário tem uma questão estrutural: o funcionamento do sistema político peruano. Embora formalmente presidencialista, o país opera com dinâmicas que se aproximam de um parlamentarismo disfuncional, ou seja, o poder parlamentar não segue as regras formais e acaba atropelando os outros poderes. Como analisa o cientista político peruano Omar Coronel, em artigo para a Nueva Sociedad, compreender o Peru hoje exige olhar menos para a disputa presidencial isoladamente e mais para as engrenagens do sistema político como um todo, especialmente a desconexão entre partidos e sociedade. | Nueva Sociedad |
Haiti
Depois de 10 anos, o Haiti volta às urnas e o voto representa não apenas uma disputa de poder, mas uma possível tentativa de reconstrução democrática. E é preciso ressaltar que há uma sociedade civil viva, e um movimento de mulheres pulsante, que segue pressionando para recompor o tecido social e garantir que as eleições aconteçam com paz e integridade.
Um pouco de contexto
Desde 2016, o Haiti enfrenta uma profunda crise de representação, agravada pelo assassinato do então presidente Jovenel Moïse, em 2021. O crime deixou como principal legado um vácuo de poder rapidamente ocupado por grupos armados. Ainda assim, em meio ao colapso, persistem esforços e movimentos voltados à reconstrução das instituições. | France 24 |
Após uma década de instabilidade, em 2025 este movimento levou a criação de um conselho de transição e o compromisso com a realização de eleições presidenciais em agosto de 2026. O número de pré-candidaturas impressiona, mais de 320 pessoas inscritas, muitas delas da diáspora haitiana no exterior. | Haitian Times |
Movimento de mulheres do Haiti como porta-voz da democracia
Vozes femininas têm sido centrais para compreender os impactos das crises humanitárias. A ativista Pascali Solares, cofundadora da organização Nègès Mawon, destaca como esses dez anos de quebra institucional no Haiti afetaram especialmente as mulheres, uma vez que as gangues criminais usaram a violência sexual como arma de controle. | Anistia Internacional |
Inclusive neste ano, ativistas, jornalistas e também lideranças políticas haitianas levaram esse debate para um espaço global. Durante a Commission on the Status of Women (CSW), realizada em Nova Iorque, promoveram discussões sobre eleições, justiça e o papel das mulheres na reconstrução democrática do país. | The Haiti Women's Collective |
Para compreender como o país tem funcionado sem eleições, a jornalista e ativista feminista Monique Flesca analisou, em entrevista ao podcast “The Real Story” da BBC, as dinâmicas cotidianas de sobrevivência, governança informal e resistência no Haiti, em um especial que reúne também vozes acadêmicos haitianos. | BBC World |
Brasil
No Brasil, o foco está na contenção do autoritarismo e o Senado é hoje um espaço estratégico nessa disputa. Preservar sua composição democrática, e ao mesmo tempo trabalhar pelo fortalecimento de agendas inovadoras, é o caminho para frear projetos autoritários e trabalhar por uma democracia mais representativa. A aposta mais potente este ano passa pela ampliação da presença de mulheres comprometidas com a agenda de direitos. Se a composição do Senado em 2026 será decisiva para definir os limites da democracia brasileira, ampliar a presença de mulheres no legislativo significa levar ao centro do poder institucional a inovação política dos territórios, organizações e comunidades, e que precisa, de uma vez por todas, ocupar os espaços de decisão.
Para entender o momento do Brasil, é preciso olhar para o que está acontecendo agora.
O país está mergulhado em um escândalo bancário que atinge ministros do Supremo Tribunal Federal e parlamentares da direita. Isso só engrossa o caldo de desconfiança nas instituições. Esse cenário pode levar tanto ao afastamento das pessoas das urnas quanto ao crescimento de um voto antissistêmico, que é facilmente canalizado pela extrema direita. | Agenda Pública |
Agora, no campo da disputa presidencial, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece como favorito à reeleição, mas com uma vantagem apertada sobre o segundo colocado, o senador Flávio Bolsonaro. O sobrenome não é coincidência: Flávio é o filho mais velho de Jair Bolsonaro e tenta se consolidar como principal representante de uma direita que busca se posicionar como mais moderada, mas que segue diretamente ligada ao legado autoritário do bolsonarismo. | Nexo Jornal |
Paralelamente, há uma movimentação estratégica no campo progressista
A disputa pelo Senado Federal. Ministras como Simone Tebet e Marina Silva são cotadas para concorrer ao Senado, assim como a Deputada Benedita da Silva, uma das principais figuras da democracia brasileira, a ex-deputada Áurea Carolina, líder ativista de Minas Gerais, refletindo uma aposta em fortalecer a presença de mulheres e lideranças progressistas na Casa. Isso porque o Senado tem se consolidado como um espaço-chave de contenção institucional, especialmente diante de uma Câmara dos Deputados marcada pela forte presença de setores alinhados ao bolsonarismo. | Intercept Brasil |
Respondendo à pergunta que abre este boletim: os quatro países têm suas particularidades, mas compartilham algo em comum. Existe um tecido social que insiste em ir às ruas e às urnas para escolher um novo futuro possível. Há também uma sociedade civil atenta, trabalhando para garantir que as pessoas possam votar, que mulheres possam concorrer, que juventudes e comunidades longe dos grandes centros consigam acessar direito ao voto. É um trabalho ambicioso de agir e sonhar na prática e todos os dias, inclusive fora dos anos eleitorais.
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