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Instituto Update | O Realismo Mágico da Política Latino-americana 
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O que une Brasil, Haiti, Peru e Colômbia em 2026?

Este ano, esses países da América Latina atravessam um ciclo eleitoral decisivo. São eleições presidenciais marcadas por disputas acirradas pelo sentido e futuro da democracia. Diante disso, uma pergunta não sai da nossa cabeça: para quem, afinal, ela funciona?

A gente tenta se equilibrar numa corda bamba: de um lado, defender a democracia das ondas autoritárias, teocráticas e antidireitos; de outro, não perder de vista que a democracia sonhada é outra: mais radical, plural e justa. Denunciar que ela não é e nunca foi realidade nas favelas e periferias do país, que convivem com execuções sumárias e desaparecimentos clássicos de um Estado terrorista ditatorial; ao mesmo tempo em que protegemos com unhas e dentes as instituições democráticas e os direitos conquistados. Soa cansativo, porque é. Mas do lado de cá do mundo a gente sobrevive às crises há muitos séculos e uma série de tecnologias, forças e poderes sociais foram surgindo nessa linha do tempo. Na luta por sobrevivência - ao colonialismo, às crises econômicas, ao extrativismo e ao intervencionismo estrangeiro, nasceu uma magia bem feminista e amefricana: mesmo na contradição do caos, a gente dá um jeito de avançar.

No meio dessa tensão, algo resiste e se reinventa. O protagonismo político das mulheres e dos movimentos feministas, com a beleza e potência da sua pluralidade, emerge nos 4 países. É resultado de muita organização e resistência coletiva em cenários desafiadores. A onda é tão grande e poderosa, que estamos reinventando o vocabulário político-democrático: falamos de Bem-Viver, cuidado, solidariedade, reparação, diversidade, comunidade. A gente muda a forma de falar, de imaginar e de fazer política.

Acompanhar essas eleições é tentar ler, nas disputas do presente, os contornos de outros futuros possíveis já se desenhando. E como é bom ver o novo brotar. Este boletim especial do Realismo Mágico da Política Latino-americana reúne análises e informações-chave para entender o que está em jogo, e por que vale continuar apostando.

Mariah Gama, Coordenadora de Comunicação do Instituto Update.

Colômbia 
Olhem só que coincidência: as tão aguardadas eleições legislativas na Colômbia aconteceram justo no dia 8 de março. Então o chamado feminista de levar o protesto das ruas às urnas ganhou ainda mais força. E não por acaso nem sorte, foram as mulheres que protagonizaram os principais acontecimentos e vitórias deste pleito.

Nem tudo são flores: no Senado, a candidatura mais votada em nível nacional foi a de uma mulher do campo conservador: Nadia Blel Scaff. Mas o cenário geral aponta para outra direção. A maioria das mulheres eleitas ao Senado defende agendas feministas e progressistas. | Infobae | | Radio Nacional |

No mesmo dia das legislativas, também ocorreram as consultas internas dos partidos, e, mais uma vez, o destaque da noite de apuração foi o nome de uma mulher de direita, com uma agenda que passa bem longe das pautas feministas. A senadora Paloma Valencia, vinculada ao campo uribista. Ela já deixou claro que não se considera feminista e nem defende o direito ao aborto. Ao exaltar seu lugar como mulher em espaços historicamente definidos como masculinos, ao mesmo tempo em que ataca a agenda feminista, Paloma desconsidera o movimento coletivo que tornou possível sua própria presença nesses espaços. | BBC News |

Uma liderança indígena na vice-presidência: já podemos sonhar?

Um anúncio mobilizou o país: a coalizão de esquerda, encabeçada por Iván Cepeda, hoje à frente nas disputas e herdeiro do campo político de Gustavo Petro, apresentou sua nova candidata à vice-presidência, a líder indígena Aída Quilcué. Senadora e referência na defesa da saúde e do Bem Viver dos povos indígenas, Quilcué tem uma trajetória marcada pela participação nos processos do Acordo de Paz de 2016. Sua indicação ecoa movimentos anteriores de articulação entre lideranças populares e figuras de grande projeção, como Francia Márquez.  | Volcánicas |

Foi inclusive a coalizão de esquerda do Pacto Histórico, encabeçada agora por Iván e Aída, quem mais elegeu parlamentares no saldo final. Mesmo com esse resultado, o bloco não conquistou maioria no Congresso. O resultado gerou uma celebração cautelosa e a expectativa voltada para as eleições presidenciais, que acontecem no final de maio. | El País |

Se, por um lado, as mulheres protagonizaram os principais movimentos políticos, o pleito revelou um paradoxo: embora mais mulheres tenham se candidatado a cargos legislativos, o crescimento da representação feminina no Congresso foi tímido. Na Câmara dos Deputados, por exemplo, a participação permaneceu abaixo de 30%. Um retrato de uma tendência regional de estagnação da presença feminina nos espaços legislativos de poder. | El Tiempo |

Ancestralidade e tecnologia: líder indígena propõe ferramenta de IA para construção de consenso 


Entre as experiências políticas mais inusitadas da eleição esteve a candidatura ao Senado da iniciativa Gaitana IA. O projeto, liderado por um parlamentar indígena, buscava experimentar um modelo de “inteligência comunitária” no parlamento, com decisões orientadas por consultas coletivas e consensos comunitários mediados por tecnologia. A proposta, no entanto, não alcançou votos suficientes para conquistar uma cadeira no Senado. A ideia de consulta, participação e tomada de decisão comunitárias brilha nossos olhos, mas ainda temos um pé atrás com essa história de IA e política. Essa iniciativa te entusiasma ou te assusta? | La Silla Vacía |
 



Perú 
Haja candidatura: são 36 nomes na disputa presidencial para as eleições de abril, mas mais de 40% do eleitorado segue indeciso. A disputa vai ser acirrada pelos indecisos, e o campo progressista tem a oportunidade de se comunicar com a massa de jovens indignados. 

O fantasma do autoritarismo: Entre os nomes que lideram as pesquisas, aparecem figuras já conhecidas. Keiko Fujimori, filha do ditador Alberto Fujimori que governou o país por 10 anos, mantém forte presença política mesmo após sucessivas derrotas eleitorais e investigações por corrupção. Na dianteira, surge Rafael López Aliaga, líder do partido Renovación Popular. Empresário e conservador, ele construiu sua imagem pública com forte discurso religioso e anti-esquerda, sendo apelidado de “Bolsonaro Peruano” | Expresso | Tá aí uma coisa que a gente não queria exportar 🤦🏾‍♀️

Enquanto isso, o campo progressista tenta se reorganizar. A coalizão Nuevo Perú aposta em lideranças territoriais e na representação de povos indígenas, com nomes como Verónika Mendoza e Alberto Quintanilla, que articulam agendas ligadas ao Bem Viver andino e à justiça social em regiões como Cusco e Puno. | Peru 21 |

Mas no fim, quem vai decidir essa eleição são as juventudes!

A geração Z, que protagonizou uma série de mobilizações recentes no país, concentra grande parte dos indecisos e representa um eleitorado em expansão. Ao contrário do que muita gente pensa, a juventude é um sujeito político chave, mas não são todas as figuras políticas que conseguem falar seu idioma.  Cerca de 38% dos jovens peruanos demonstram interesse por política, mas apenas 6% relatam participação ativa. O desafio é transformar indignação em engajamento eleitoral. Não dá mais pra adiar: é a hora de aprender as novas gírias, o sendo de humor, conhecer os influencers, memes e trends do momento e baixar o tik tok 🫨. | El Comercio |

Por trás desse cenário tem uma questão estrutural: o funcionamento do sistema político peruano. Embora formalmente presidencialista, o país opera com dinâmicas que se aproximam de um parlamentarismo disfuncional, ou seja, o poder parlamentar não segue as regras formais e acaba atropelando os outros poderes. Como analisa o cientista político peruano Omar Coronel, em artigo para a Nueva Sociedad, compreender o Peru hoje exige olhar menos para a disputa presidencial isoladamente e mais para as engrenagens do sistema político como um todo, especialmente a desconexão entre partidos e sociedade. | Nueva Sociedad |

 


 

Haiti
Depois de 10 anos, o Haiti volta às urnas e o voto representa não apenas uma disputa de poder, mas uma possível tentativa de reconstrução democrática. E é preciso ressaltar que há uma sociedade civil viva, e um movimento de mulheres pulsante, que segue pressionando para recompor o tecido social e garantir que as eleições aconteçam com paz e integridade.


Um pouco de contexto

Desde 2016, o Haiti enfrenta uma profunda crise de representação, agravada pelo assassinato do então presidente Jovenel Moïse, em 2021. O crime deixou como principal legado um vácuo de poder rapidamente ocupado por grupos armados. Ainda assim, em meio ao colapso, persistem esforços e movimentos voltados à reconstrução das instituições. | France 24 |

Após uma década de instabilidade, em 2025 este movimento levou a criação de um conselho de transição e o compromisso com a realização de eleições presidenciais em agosto de 2026. O número de pré-candidaturas impressiona, mais de 320 pessoas inscritas, muitas delas da diáspora haitiana no exterior.  | Haitian Times |

Movimento de mulheres do Haiti como porta-voz da democracia 

Vozes femininas têm sido centrais para compreender os impactos das crises humanitárias. A ativista Pascali Solares, cofundadora da organização Nègès Mawon, destaca como esses dez anos de quebra institucional no Haiti afetaram especialmente as mulheres, uma vez que as gangues criminais usaram a violência sexual como arma de controle. | Anistia Internacional |

Inclusive neste ano, ativistas, jornalistas e também lideranças políticas haitianas levaram esse debate para um espaço global. Durante a Commission on the Status of Women (CSW), realizada em Nova Iorque, promoveram discussões sobre eleições, justiça e o papel das mulheres na reconstrução democrática do país. | The Haiti Women's Collective |

Para compreender como o país tem funcionado sem eleições, a jornalista e ativista feminista Monique Flesca analisou, em entrevista ao podcast “The Real Story” da BBC, as dinâmicas cotidianas de sobrevivência, governança informal e resistência no Haiti, em um especial que reúne também vozes acadêmicos haitianos. | BBC World |

 



Brasil 
No Brasil, o foco está na contenção do autoritarismo e o Senado é hoje um espaço estratégico nessa disputa. Preservar sua composição democrática, e ao mesmo tempo trabalhar pelo fortalecimento de agendas inovadoras, é o caminho para frear projetos autoritários e trabalhar por uma democracia mais representativa. A aposta mais potente este ano passa pela ampliação da presença de mulheres comprometidas com a agenda de direitos. Se a composição do Senado em 2026 será decisiva para definir os limites da democracia brasileira, ampliar a presença de mulheres no legislativo significa levar ao centro do poder institucional a inovação política dos territórios, organizações e comunidades,  e que precisa, de uma vez por todas, ocupar os espaços de decisão.

Para entender o momento do Brasil, é preciso olhar para o que está acontecendo agora.

O país está mergulhado em um escândalo bancário que atinge ministros do Supremo Tribunal Federal e parlamentares da direita. Isso só engrossa o caldo de desconfiança nas instituições. Esse cenário pode levar tanto ao afastamento das pessoas das urnas quanto ao crescimento de um voto antissistêmico, que é facilmente canalizado pela extrema direita. | Agenda Pública |

Agora, no campo da disputa presidencial, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece como favorito à reeleição, mas com uma vantagem apertada sobre o segundo colocado, o senador Flávio Bolsonaro. O sobrenome não é coincidência: Flávio é o filho mais velho de Jair Bolsonaro e tenta se consolidar como principal representante de uma direita que busca se posicionar como mais moderada, mas que segue diretamente ligada ao legado autoritário do bolsonarismo.  | Nexo Jornal |

Paralelamente, há uma movimentação estratégica no campo progressista

A disputa pelo Senado Federal. Ministras como Simone Tebet e Marina Silva são cotadas para concorrer ao Senado, assim como a Deputada Benedita da Silva, uma das principais figuras da democracia brasileira, a ex-deputada Áurea Carolina, líder ativista de Minas Gerais, refletindo uma aposta em fortalecer a presença de mulheres e lideranças progressistas na Casa. Isso porque o Senado tem se consolidado como um espaço-chave de contenção institucional, especialmente diante de uma Câmara dos Deputados marcada pela forte presença de setores alinhados ao bolsonarismo. | Intercept Brasil |


 



Respondendo à pergunta que abre este boletim: os quatro países têm suas particularidades, mas compartilham algo em comum. Existe um tecido social que insiste em ir às ruas e às urnas para escolher um novo futuro possível. Há também uma sociedade civil atenta, trabalhando para garantir que as pessoas possam votar, que mulheres possam concorrer, que juventudes e comunidades longe dos grandes centros consigam acessar direito ao voto. É um trabalho ambicioso de agir e sonhar na prática e todos os dias, inclusive fora dos anos eleitorais.

Dicas da quinzena da equipe do Instituto Update pra você.
 

🖥️MIRA a análise do jornalista brasileiro, Ariel Palacios, que explica em um minuto a trajetória recente dos últimos dez presidentes do Peru, destacando como um Congresso majoritariamente autoritário acabou levando ao poder uma figura marxista e as incongruências do parlamento.

🎧ESCUCHA  o episódio do podcast "Invisibles Nunca Más" que conta a história de Aída Quilcué, anunciada como candidata à vice-presidência pela coalizão Pacto Histórico na Colômbia.

💃🏽BAILA com o  Tiny Desk Concert da multi-instrumentista mexicana Silvana Estrada, que esteve no Brasil na última semana.

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