|
Quando o próximo presidente ou a próxima presidente do Peru tomar posse, em 28 de julho, o país já estará vivendo um novo ciclo no calendário andino. Isso porque o Ano Novo Inca é celebrado em 21 de junho, durante o solstício de inverno no hemisfério sul: a noite mais longa do ano para quem observa os astros a partir da América Latina.
Assim como os Incas definiam o tempo e o espaço a partir de sua própria cosmovisão, não é possível olhar para a democracia peruana sem considerar a complexidade de um país de tensões e contrastes. As eleições realizadas neste fim de semana e todo o processo democrático peruano precisam ser compreendidas à luz dessas múltiplas camadas que se sobrepõem, entre uma cultura milenar e a política institucional aos moldes coloniais e extrativistas.
O Peru é berço de saberes ancestrais de povos originários que desenvolveram formas sofisticadas de organização social, política e tecnológica muito antes da colonização e antes mesmo da ideia moderna de Estado, dos Três Poderes ou das eleições como as conhecemos hoje. Antes de ser um território nacional, o Peru é um território ancestral. Isso orienta nossa leitura sobre a democracia peruana.
No centro do desconcerto democrático, há um vazio de representação. Em um país onde cerca de um terço da população se autodeclara indígena, há 35 candidaturas presidenciais e nenhuma pessoa indigena concorrendo, e também nenhuma dialoga diretamente com as pautas indígenas. O mesmo se reflete nos planos de governo, que ignoram temas centrais como a conservação das terras indígenas amazônicas.
Cruzando a Transamazônica, no Brasil, nesta mesma semana, o Acampamento Terra Livre, um experimento de democracia radical a céu aberto, levou a Brasília a convicção de que o futuro não está à venda. Do Planalto Central aos Andes peruanos, há um fio comum que conecta essas realidades: a reivindicação de um retorno às raízes. A ancestralidade deve, sim, ser entendida como projeto político.
Se na sabedoria andina, o tempo não é concebido como uma linha reta, mas como um ciclo em movimento, então o futuro pode ser, sim, uma reconexão com cosmovisões que o colonialismo e o desenvolvimentismo insistem que ficaram enterrados no passado. Ao contrário: elas seguem tecendo soluções para crises democráticas do presente.
|
|
|
Triplo empate técnico mais de 72 horas após a eleição no Peru.
A jornada eleitoral no Peru acabou se estendendo de domingo para segunda-feira depois que um erro logístico na entrega de urnas em 13 centros de votação deixou ao menos 52 mil pessoas sem conseguir votar em Lima — polêmica que dominou o noticiário ao longo do dia. | Ojo Público |
Keiko Fujimori largou na frente e garantiu vaga no segundo turno com cerca de 18% dos votos. A disputa pela segunda posição foi acirrada: após um quase empate técnico entre três candidatos, López Aliaga, conhecido como o “Bolsonaro peruano”, também avançou. O cenário revela uma eleição com baixa representatividade, já que a votação foi fragmentada e uma parcela muito pequena do eleitorado se vê refletida nos nomes que seguem na disputa. | La Mula |
Notícia boa? A eleição para o Senado da atual legisladora Silvana Robles.
Foi ela quem criou a Comissão de Povos Indígenas na Câmara Legislativa peruana e é especialista em saúde indígena. Também foi responsável por apresentar o projeto de lei que propõe a criação de gerências regionais de desenvolvimento da população indígena e afrodescendente, o que significa na prática, estruturar espaços de governo para colocar a própria população dentro do aparato público. | Servindi |
O pleito marcou um momento histórico: pela primeira vez em 30 anos, o país voltou a eleger um Congresso bicameral, com Câmara dos Deputados e Senado, que haviam sido dissolvidas durante a ditadura de Alberto Fujimori (Sim, o pai da candidata que lidera a corrida).
A maior mobilização de povos indígenas da América Latina.
Mais de 7 mil indígenas, de cerca de 200 povos, se reuniram em Brasília entre os dias 5 e 11 de abril no Acampamento Terra Livre de 2026, a maior mobilização indígena do país, organizada desde 2004 pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil. O acampamento é uma grande manifestação cultural e assembléia política à céu aberto e leva pra capital do país as reivindicações dos territórios. | Nexo Jornal |
Neste ano, o destaque da pauta foi o enfrentamento à mineração ilegal em terras indígenas, uma ameaça direta à soberania dos territórios. E essa é uma pauta muito quente em toda a região. Na Argentina, por exemplo, a recente flexibilização da lei de proteção aos glaciares abriu caminho para a expansão da mineração em áreas sensíveis, enquanto na Venezuela a Assembleia Nacional da aprovou a lei de mineração para permitir a exploração estrangeira.
Neste ano o compromisso é levar a proteção dos territórios às urnas.
Há seis meses das eleições, o Acampamento Terra Livre também colocou no centro a apresentação de pré-candidaturas indígenas. O chamado é para ocupar cadeiras no Congresso Nacional, hoje visto como um dos principais entraves à demarcação de terras, e levar a resistência para dentro das instituições. | Sumaúma | | Foto: Rafa Neddemeyer/Agência Brasil |
|
|
|
¡Viva el SUS! Inspirada no Brasil, presidente do México anuncia Sistema Universal de Saúde.
A presidenta Claudia Sheinbaum vem se consolidando como um contraponto direto a Donald Trump na forma de governar e nas prioridades de políticas públicas. Enquanto nos Estados Unidos Trump anunciou cortes no financiamento da saúde voltada à população de baixa renda, no México, Sheinbaum avança na direção oposta, com o anúncio de um sistema universal de saúde. | Animal Político |
Há exatamente um ano, na Cidade do México, um encontro reuniu governo, sociedade civil e organismos internacionais para debater o futuro dos cuidados no país. O anúncio do sistema universal, agora, pode ser lido como um desdobramento concreto dessa agenda. | La Cadena de Eva |
Argentinos se unem contra a guerra e denunciam falas de Javier Milei.
Na Argentina, uma ampla coalizão formada por embaixadores, figuras públicas e acadêmicos lançou um chamado pela paz, denunciando o alinhamento bélico do governo Milei. O posicionamento surge em resposta às falas recentes do presidente sobre o Irã, incluindo declarações como “o Irã é nosso inimigo” e “vamos ganhar a guerra”. | Nodal |
O alinhamento do governo de Javier Milei com os Estados Unidos acende um alerta e coloca a Argentina num dilema meio incômodo. De um lado, os EUA sinalizam apoio à retomada das Ilhas Malvinas, hoje sob controle do Reino Unido. Essa é uma ferida histórica do país, que perdeu o território na Guerra das Malvinas durante a ditadura militar e que mobiliza o orgulho nacional argentino. Por outro lado, esse mesmo apoio pode vir com interesses estratégicos no pacote. | Revista Anfibia |
O autoritarismo viralizado: levantamento de jornal uruguaio mostra perfil de ditadores no instagram.
No Uruguai, jornalistas do meio La Diaria investigaram uma tendência preocupante nas redes sociais: a transformação de ditadores em figuras “cool” no TikTok. A partir de uma busca ativa na plataforma, identificaram contas e influenciadores que produzem conteúdos que suavizam ou até celebram regimes autoritários. A análise incluiu perfis de países como Argentina, Brasil e Chile, revelando que é uma tendência regional. | La Diaria |
|
|
|
Uma das grandes marcas das eleições no Peru foi a tentativa dos candidatos de dialogar com a geração Z.
Esse grupo representa a maior fatia do eleitorado, com mais de 26% dos votantes tendo menos de 30 anos, e também concentra o maior número de indecisos, sendo portanto um público central em disputa; ao mesmo tempo, trata-se de uma geração que vem expressando forte insatisfação, tendo ido às ruas no final de 2025 em protestos contra as instituições peruanas, marcando esse ciclo eleitoral com um tom de indignação e demanda por mudança. | ABC |
Trazendo essa discussão para eleições no Brasil.
O podcast Calma Urgente propôs uma reflexão sobre o voto jovem em 2026. A leitura de que a juventude hoje é mais conservadora e que esses votos já estão perdidos merece um olhar mais cuidadoso.| Calma Urgente |
Um dos pontos levantados, com base na pesquisa “Juventude: um desafio pendente”, da FES, é que, embora muitos jovens não se identifiquem explicitamente com a esquerda, há uma concordância significativa com pautas historicamente associadas a esse campo, como amplo apoio à saúde pública universal. Isso revela um espaço importante de diálogo e a sinalização que há valores e demandas concretas em disputa. | FES Brasil |
|
|
|
Dicas da quinzena da equipe do Instituto Update pra você.
🖥️MIRA as análises do perfil da influenciadora peruana Alessandra Yupanqui (@alessandra_yupanqui), cofundadora da plataforma sapiens.lat, que busca disseminar o conhecimento andino com notícias e reflexões a partir dos territórios peruanos.
🎧ESCUCHA É possível votar com otimismo mesmo depois de décadas vendo os favoritos perderem as eleições? Essa é a reflexão da historiadora peruana Natalia Sobrevilla no dia do pleito, em um episódio especial do podcast Tu Dosis Diaria, do meio Jugo.pe.
💃🏽BAILA com a canção “Chologante”, de A.Chal, cantor da região costeira do Peru, que mistura elementos das canções populares andinas com uma proposta urbana.
|
|
|
|
|