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Instituto Update | O Realismo Mágico da Política Latino-americana |
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Quem entra em campo
e quem fica de fora?

O que o futebol nos diz sobre pertencimento,
poder e imaginação política na América Latina?

São seis minutos do segundo tempo no Estádio Azteca, na Cidade do México. É junho de 1986. Nas quartas de final da Copa do Mundo, o argentino Diego Maradona e o inglês Peter Shilton saltam juntos em direção à bola, suspensa por um instante sobre a área inglesa. Quando ela cruza a linha do gol, o mundo ainda tenta entender o que acabou de acontecer enquanto oitenta mil vozes explodem nas arquibancadas. Diante da televisão, milhões. Os ingleses protestam, os argentinos celebram, e o árbitro confirma o lance, marcado “um pouco com a cabeça, um pouco com a mão de Deus”, segundo o próprio Maradona, na frase que eternizou o momento.

Apenas quatro minutos separam aquele gol do próximo. Não é muito, mas o suficiente para Maradona receber a bola no meio-campo, driblar cinco ingleses e marcar o Gol do Século, um lance tão prodigioso que também transformou o anterior em lenda. A partir daquele momento, os dois episódios se tornariam inseparáveis. Ali estavam o gol mais bonito e o mais controverso da história do futebol: marcados na mesma partida, pelo mesmo jogador, contra o mesmo adversário.

E não era qualquer adversário. Há apenas quatro anos, Argentina e Inglaterra se enfrentavam na Guerra das Malvinas, conflito que deixou centenas de mortos e uma ferida ainda aberta na sociedade argentina.

“O clima da partida fez parecer que íamos jogar outra guerra”
— lembrou Maradona.

É verdade que nenhum drible seria capaz de recuperar território ou reescrever a história. No entanto, naquele gramado da Cidade do México, o futebol deu forma à indignação compartilhada por milhões, tornando-se uma fresta de justiça poética.

Na América Latina, o futebol nunca foi apenas esporte, mas uma expressão de cultura popular marcada por astúcia, improviso, drama e invenção. Durante décadas, a Copa do Mundo esteve entre os poucos espaços em que o continente podia experimentar formas de protagonismo raramente disponíveis na arena geopolítica. Em campo, hierarquias pareciam menos permanentes e o improvável ganhava espaço. Ao mesmo tempo, dentro de sociedades atravessadas por desigualdades e polarizações profundas, a Copa ajudava a produzir pertencimento.

Camisas, bandeiras, hinos e seleções ofereciam uma linguagem compartilhada.

Cinco décadas depois, o jogo continua o mesmo. O mundo ao redor dele, não. Muitos dos talentos que hoje movimentam a indústria seguem sendo produzidos na América Latina, na África e em outras regiões do Sul Global. No entanto, desde a liberalização do mercado europeu após a Lei Bosman, em 1995, esses jogadores passaram a ser recrutados cada vez mais cedo por clubes que concentram dinheiro, prestígio e poder. A lógica é a mesma daquela que organiza a economia global: o talento é produzido na periferia, enquanto o valor agregado se acumula nos centros de poder.

Aos poucos, clubes viraram marcas globais e competições passaram a operar como plataformas econômicas. A Copa do Mundo de 2026 talvez seja o símbolo mais evidente dessa mudança. Disputada por 48 seleções em três países, ela promete ampliar a escala do espetáculo, mas também consolida um modelo nunca antes tão
caro e concentrado. Não por acaso, o Mundial se tornou um instrumento de projeção política num momento em que o ideal de integração global parece cada vez mais frágil, além de um palco onde se cruzam debates sobre clima, identidade nacional e as transformações do próprio futebol.

Mas a
disputa pelo significado permanece aberta. O crescimento do futebol feminino, a expectativa em torno da Copa de 2027 no Brasil e a busca por ressignificação no uso da camisa da seleção e da bandeira nacional mostram que novas formas de pertencimento estão sendo produzidas.

A Copa segue distribuindo títulos.
O futebol distribui algo maior:
maneiras de imaginar quem somos.

E essa partida segue rolando.

 
Bola de futebol
Outra vez, Ni Una Menos: Onze anos depois, a violência de gênero leva multidões às ruas
Em 3 de junho, milhares de pessoas se reuniram diante do Congresso, em Buenos Aires, e em cidades de toda a Argentina para exigir políticas públicas de combate à violência contra mulheres e diversidades.

Os
recentes feminicídios de Agostina Vega, de 14 anos, e Dulce Candia, de 17, reacenderam o debate sobre um problema que resiste ao passar do tempo. Entre 2015 e maio de 2026, ao menos 3.205 pessoas foram vítimas letais de violência de gênero no país, dado que ajuda a explicar por que, onze anos depois, o grito segue o mesmo: Ni Una Menos. | Página 12 |

 
A promessa de 1962
No Caribe, a Jamaica ainda disputa a promessa de 1962. Mais de seis décadas após romper os laços coloniais com o Reino Unido, o país ainda tateia o abismo que separa a soberania jurídica da emancipação real. Enquanto o governo em Kingston tenta acelerar a transição definitiva para o modelo republicano, cortando os últimos vínculos formais com a Coroa britânica, o assassinato de Latoya Bulgin durante uma manifestação popular colocou em xeque a capacidade do Estado de proteger seus próprios cidadãos. Acusado de atirar contra Bulgin, um policial foi formalmente denunciado por homicídio em um caso que provocou indignação nacional e renovou as críticas ao uso excessivo da força pelas autoridades. | CNW |
 
Em votação de dois minutos, Senado brasileiro anula norma sobre aborto legal em crianças e adolescentes vítimas de estupro
No papel, nada mudou. Na prática, o caminho pode ter ficado mais longo. O Senado brasileiro aprovou a derrubada da resolução que orientava o atendimento de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual na rede pública de saúde. A decisão não altera o direito ao aborto legal em casos de estupro, garantido pelo Código Penal desde 1940, mas elimina as diretrizes nacionais que buscavam padronizar o acesso a esse atendimento.

Sem esse protocolo unificado, estados, municípios e hospitais passam a definir seus próprios procedimentos.
Especialistas alertam que a mudança pode aumentar a burocracia para acessar o serviço, reabrindo espaço para exigências como boletins de ocorrência ou autorizações judiciais; criar insegurança em casos de abuso dentro da própria família, quando responsáveis tentam impedir o atendimento; e aprofundar desigualdades regionais, tornando o acesso a um direito previsto em lei cada vez mais dependente do local onde a vítima vive. | Agência Brasil |

 
Tariflávio: a conta da Casa Branca chega para o bolso brasileiro
Flávio Bolsonaro e Donald Trump no Salão Oval da Casa Branca, em Washington, EUA • Reprodução/Truth Social (@realDonaldTrump)

Dias após a visita de Flávio Bolsonaro à Casa Branca, o anúncio de novas tarifas sobre produtos brasileiros por parte do governo Trump alimentou uma onda de repercussão política no Brasil, rapidamente batizada de "Tariflávio" nas redes sociais. No debate nacional, a proximidade entre os acontecimentos cobriu a foto sorridente tirada nos EUA com um filtro de ironia. A visita acabou reforçando uma velha pergunta da política latino-americana: onde termina a afinidade ideológica e começa a submissão?

Diante das câmeras, desenhou-se a aproximação da direita brasileira ao trumpismo, reforçada pela decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Nos bastidores, porém, a visita cumpria uma função mais imediata: erguer uma cortina de fumaça sobre a repercussão envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

O desgaste ocorre em um momento sensível da corrida presidencial. Segundo o Datafolha, Flávio Bolsonaro já havia recuado de 35% para 31% nas intenções de voto de primeiro turno após as repercussões envolvendo o Banco Master, enquanto Lula passou de 38% para 40%, ampliando a distância de três para nove pontos. No segundo turno, o empate numérico de 45% deu lugar a uma vantagem de 47% a 43% para o petista, deixando os candidatos no limite do empate técnico. | CNN Brasil |

A conta do ajuste nas ruas chilenas
Chilenos protestam em Santiago contra as medidas de austeridade do governo Kast. (Foto: Elvis González/EFE)
Em Santiago, junho abriu caminho à força. No primeiro dia do mês, milhares de estudantes ocuparam o centro da capital chilena para protestar contra os cortes orçamentários anunciados pelo governo de José Antonio Kast. Convocada pela Confederação de Estudantes do Chile (Confech), a manifestação aconteceu poucos dias depois de o ministro da Fazenda, Jorge Quiroz, anunciar o envio ao Congresso de um projeto que amplia em US$ 6,2 bilhões a capacidade de endividamento do país.

A saúde pública concentra as maiores preocupações. O setor sofrerá uma redução de cerca de US$ 486 milhões, provocando críticas de funcionários, prefeitos e parlamentares, que alertam para possíveis impactos no funcionamento dos hospitais e no acesso da população ao atendimento médico. | CNN |

 
Macondo sitiado: a engrenagem por trás da corrida presidencial colombiana
Foi o imaginário de Gabriel García Márquez que ajudou a popularizar a ideia de que a Colômbia é um país onde coisas extraordinárias acontecem todos os dias. Às vésperas do segundo turno presidencial, marcado para 21 de junho, essa vocação para o extraordinário assumiu uma face mais sombria com a disputa entre Iván Cepeda, herdeiro do petrismo, e o advogado de direita radical Abelardo de la Espriella.

A engenharia política de De la Espriella opera em duas frentes que agora
começam a se chocar, conforme exposto pela imprensa independente colombiana. De um lado, o candidato avança com assédio judicial e linchamentos virtuais coordenados contra jornalistas; de outro, o vazamento de sua base de dados com 1,4 milhão de apoiadores expôs a fragilidade de sua estrutura de campanha. Sem travas de segurança, o aplicativo expôs dados de 17 mil funcionários públicos e policiais da ativa (violando leis de segurança nacional), além de inscrições fraudulentas que incluíam desde o presidente Gustavo Petro até o chefe do órgão eleitoral sob contatos falsos, lançando suspeitas imediatas sobre a legitimidade de sua máquina digital.
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Liga contra el Silencio |

O paradoxo talvez seja menos colombiano do que parece. Como
observa essa cientista política, democracias raramente deixam de existir por falta de quem as defenda. Mais frequentemente, são enfraquecidas por líderes que prometem protegê-las enquanto tratam instituições, tribunais e regras como obstáculos a serem contornados. O desafio para os eleitores vira descobrir quem continua defendendo as regras quando elas impedem que sua própria agenda avance.
“A pergunta não é se essas medidas são convenientes ou não. A pergunta é: como alguém que promete violar a Constituição consegue se apresentar como fiador da institucionalidade?”
O rio que ganhou uma família

Em meio a uma edição da nossa news marcada por ausências, conflitos e disputas por território, uma decisão no Equador oferece motivos para otimismo. No país, um juiz ordenou a suspensão imediata da mineração no rio Ortega, corredor ecológico estratégico entre os Andes e a Amazônia. Mais do que interromper a atividade extrativista, a decisão nomeou a Comunidade Intercultural Ortega Alto como guardiã oficial do rio, atribuindo aos moradores a responsabilidade de acompanhar sua proteção e recuperação.

O caso chama atenção por transformar uma disputa ambiental em uma experiência inédita de governança. Diante das dificuldades do Estado em fiscalizar a região e conter a mineração irregular, a Justiça apostou em um modelo que reconhece o protagonismo das comunidades locais na conservação do território. | Mongabay |

O rio Ortega, corredor ecológico entre os Andes e a Amazônia. Foto: Comunidade Intercultural Ortega Alto.
 
A festa e os ausentes

A Copa do Mundo promete devolver ao México um lugar de destaque no imaginário global. Mas, para as mães buscadoras, a pergunta que atravessa o país não é quem levantará a taça em 2026, e sim onde estão os mais de 134 mil desaparecidos mexicanos. À medida que o governo investe em infraestrutura e segurança para receber o torneio, coletivos de familiares denunciam o risco de que a celebração esportiva ajude a obscurecer uma das mais graves crises de direitos humanos da América Latina. | PRESENTES |

“A bola volta para casa, nossos desaparecidos quando?”

— as mães buscadoras se perguntam, fazendo referência ao slogan do governo.
 

O último ricotero: o que a despedida do Indio Solari nos ensina sobre a Argentina
A comoção provocada pela morte de Carlos "Indio" Solari no dia 5 transformou o funeral do músico em um fenômeno social e político. Para além da trajetória da banda Redondos, a mobilização reacendeu o debate sobre uma identidade coletiva forjada nos anos 1990, em meio ao desemprego, à fragmentação social e ao enfraquecimento das formas tradicionais de representação. Três décadas depois, a despedida revelou que essa Argentina subterrânea continua viva — e ainda procura quem a interprete. | Anfibia |
Uma multidão de fãs se concentra neste domingo em Villa Domínico. (Foto: Victor R. Caivano/AP)
Quem cabe na foto?
A Copa do Mundo cenografa como um país quer ser visto. O manifesto da Marcha do Orgulho LGBT+ da Cidade do México questiona essa imagem — e quem é excluído dela. Marcada para 27 de junho, às vésperas do Mundial de 2026, a mobilização transforma o torneio em uma disputa sobre dignidade, espaço público e o direito de existir na narrativa oficial do país. | Marcha LGBT CDMX |
 
 
Dicas da quinzena da equipe do Instituto Update para você.
🖥️ MIRA Chegou à Amazon Prime uma nova adaptação de A Casa dos Espíritos. A produção revisita a obra-prima de Isabel Allende, costurando fantasmas familiares, paixões avassaladoras e as cicatrizes deixadas pelas ditaduras do Cone Sul. Quatro décadas depois, a história dos Trueba segue oferecendo uma chave valiosa para pensar a América Latina.

🎧 ESCUCHA “É um medo que reorganiza a vida inteira”, diz Carolina Althaller no podcast da Revista Gama sobre a pesquisa Mulheres em Diálogo – Segurança Pública. Na conversa, a diretora executiva do Instituto Update fala sobre como a violência molda trajetos, horários e escolhas cotidianas das mulheres brasileiras — e sobre o que seria necessário para que elas circulassem pelas cidades com mais liberdade.

💃🏽 BAILA com o Tiny Desk da porto-riquenha RaiNao. Entre saxofones, eletrônica e reggaeton, a artista constrói uma homenagem às tradições musicais da ilha sobre uma base de güiros, timbales e maracas. O resultado é um retrato sonoro de um Caribe em transformação: um pé na tradição; o outro na próxima geração de sons da ilha.
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